Estamos
todos apavorados com o mar de lama que assola o país. As
denúncias são tantas que chegamos ao ponto de desconfiar dos
denunciantes. Ao ver criminosos confessos jurando que sua
denúncia é verdadeira; ao ver denunciados obtendo liminares
judiciais que os isentem da obrigação de dizer a verdade,
perguntamo-nos se não são todos farinha do mesmo saco.
A
dona de casa diz que não confia mais. Seu filho acha que é
preciso jogar uma bomba. Gente antiga diz que isso sempre foi
assim, que basta conhecer a história do Brasil. A diferença,
dizem esses, é que agora temos uma imprensa que mostra as coisas,
e gente que denuncia, se não receber sua parte; gente capaz de
explodir o próprio avião, se não conseguir "levar sua
parte".
Gente
preocupada se pergunta em quem votar, pois aqueles em quem
acreditavam, hoje estão sendo investigados ou já cassados. Gente
crente se põe de joelhos e ora; outros marcham pelo país. Uns,
para que Deus nos livre dessa matilha; outros, para que Deus os
reeleja.
Gente
ativa propõe ações pela cidadania. Gente politizada se
apresenta como alternativa "a isto que está aí". Mas
fala para gatos escaldados. A dona de casa olha desconfiada, pois
não sabe mais em que acreditar. Seu filho insiste na bomba. Gente
antiga está com medo até da polícia; comprou uma tv nova para
assistir à copa e prefere não sair mais de casa, pois pode ser
assaltado pela ronda.
Ao
se encontrar em reuniões do bairro, seja no condomínio, seja no
barzinho da sinuca, essa gente discute se o voto nulo em massa
não seria um tapa com luva de pelica nessa corja; ninguém quer
ser enganado de novo. Gente crente organiza semana nacional de
jejum pela nação para retomar o país para Jesus.
Gente
do setor privado diz que nossos políticos não são resistentes
à corrupção. Não se dão conta de que do outro lado da mesa
"de negociações" estão eles próprios (não existe
corrupto sem corruptor). Os políticos, por seu turno, reclamam do
assédio de empresários e fornecedores, dizendo que, ao assumir
seus cargos, já encontraram um esquema irresistível em
andamento. Antigo e em plena operação. E que pensaram que isso
era o jeitinho brasileiro de fazer política.
Temos
razão de estar apavorados. A dona de casa tem razão em
desconfiar da própria sombra; o garoto já fala abertamente da
bomba saneadora, e o idoso disfarça o desencanto e o
anti-depressivo, que toma escondido da família.
Mas
e os bons? Bem, tememos que sejam enlameados na próxima campanha
política. Basta, por exemplo, contrariar algum interesse da
mídia. Esta não teme mais a punição. É capaz de desenhar
chifres de demônio na foto de um cidadão e publicá-a para toda
a nação. Impunemente.
Estamos
perdidos? Ainda não. Ainda dispomos do poder de Pentecostes, para
subverter o mundo novamente. “Mas recebereis poder, ao descer
sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas...”
(At 1:8). Poder para lembrar ao apavorado que o mundo jaz no
maligno; por que, então, estamos surpresos com o andar da
carruagem? Poder para dissuadir o menino da radicalização e
ensinar-lhe os caminhos construtivos da solidariedade e da
cidadania. Poder para anunciar aos desanimados, empresários e
políticos que Deus há de julgar os povos com justiça.
Busquemos,
do alto, poder para vencer nossa própria corrupção. Poder que
eventualmente nos vocacione, prepare e envie aos centros de
decisão para prestar o serviço do sal e da luz, como estratégia
missionária. Poder para manter-se incorruptível. Poder para
vencer o mal com o bem.
É
tempo missão interna, de “intra-missão”, de intromissão nas
questões mais intestinas do país. De esteres
servindo a Deus nos palácios e mordecais
dando-lhes orientação e sustento. Símbolos do crente engajado e
de sua igreja.
Na
escola, no condomínio, no almoxarifado, na prefeitura, na
presidência, em qualquer desses âmbitos, decisões corretas ou
escusas são tomadas, diariamente. São espaços para o serviço
cristão genuíno, para intromissão. Sim, se tão-somente ali houver um crente fiel,
disposto a correr o risco de sofrer uma denúncia vazia, a dizer,
como Ester: “jejuai por mim ... se perecer, pereci” (Et
4:15,16).