Durante uma conferência para industriais, o ministro convidado é questionado sobre políticas do governo para o setor. No calor da argumentação, ele se dirige à platéia como "júri". Todos notaram o escorregão verbal, menos ele, que não atinava com a razão das risadas. Ele acabara de dizer que se sentia em casa naquele ambiente.
Freud compreendeu que nosso inconsciente nos prega peças desse tipo e chamou o fenômeno de "ato falho". Ele dizia que o inconsciente fura os bloqueios da razão por meio de atos falhos e que nenhuma palavra ou gesto aparentemente equivocado ocorre por acaso.
Psicólogos e analistas estão sempre atentos a esse fenômeno, pois sabem que os lapsos verbais e gestuais, coisas que nos "escapam", são muito reveladores e verdadeiros. Não é preciso ser psicólogo para saber disso. Qualquer namorado ou marido que tenha trocado o nome da amada se lembra da reação dela, e de que as explicações e desculpas só pioraram a situação.
Não sei se a transposição é correta, tecnicamente falando, mas esse tema me lembra as minhas "primeiras reações". Tenho a impressão de que, diante de situações-surpresa, ou de grande emoção, nossas primeiras reações são as mais verdadeiras. No entanto, muito frequentemente, são as que mais nos envergonham, porque, "pensando bem", discordamos do que fizemos ou dissemos. Depois, vêm os consertos e arremedos, mas "já era". O mal já está feito.
Observando nossos filhos, estremecemos, ao ver neles ações e reações bem parecidas com as nossas. E, como notamos mais aquelas que nos desagradam (Freud explica) perguntamo-nos: quanto disso terá sido aprendido de nossos atos falhos? Quanto de sua formação não será resultante do seu convívio forçado com nosso verdadeiro eu?
Será possível mudar nossos atos falhos? Minhas poucas leituras de Freud me dizem que não. Sem esperança. Nosso interior sempre estará lá, pronto para dar o bote, em momentos de crise. Em tempo, esse bote pode ser tanto destrutivo quanto construtivo. Depende do que será "acionado" por determinado gatilho. De todo modo, seriam pensamentos desanimadores, se não pudéssemos olhar para o alto, de onde vem o socorro.
As escrituras nos permitem crer que há remédio para isso. A resposta para o clamor do apóstolo Paulo, quando diz: "desventurado homem que sou! quem me livrará do corpo dessa morte?" é: "graças a Deus por Jesus Cristo" (Rm 7: 24, 25). Como que a dizer que é possível a transformação do "homem interior". É verdade que "a boca fala do que está cheio o coração". Mas se entregarmos nosso coração ao Senhor, aquela "nova vida" começará a aparecer. E os atos falhos começarão a mudar.
Veja quanta esperança nas palavras de Jesus: "e a favor deles eu me santifico a mim mesmo..." (Jo 17:19) . Eis um bom motivo para andar no Espírito e não satisfazer à concupiscência da carne (Gl 5:16): nossos filhos e cônjuges.
"Intromissão" é o nome que dou a esses pensamentos. Intro-missão: missão para dentro (de casa). Antes de olhar para os "confins da terra" (At 1:8), precisamos pensar em "Jerusalém", nosso lar. E orar assim: Senhor, derrama o teu poder em nosso interior e redime nossos atos falhos. Por amor dos nossos filhos e em nome do teu. Amém.