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Auto-Estima


O presidente Lula participou, em julho último, do lançamento do movimento "O melhor do Brasil é o brasileiro" - slogan extraído da obra do folclorista Câmara Cascudo. Tudo começou com a pesquisa do Instituto Latinobarómetro que, no ano passado, saiu às ruas de 17 países, com a pergunta: você confia nos seus compatriotas? Ficamos na rabeira, com apenas 4% de respostas positivas. No Paraguai, o índice atingiu 8%, enquanto 17% dos argentinos e 36% dos uruguaios responderam sim. Outro levantamento, realizado pelo Sebrae em 2002, listou os pontos fracos do caráter brasileiro, na opinião popular. Deu falta de auto-estima em primeiro lugar.

Promovido pela Associação Brasileira de Anunciantes, o movimento pretende "resgatar a auto-estima" do brasileiro, e começa com uma campanha publicitária que traz o craque Ronaldo e Herbert, do Paralamas, como exemplos de persistência, criatividade e superação. "Se essa campanha pegar, eu penso que poderemos, em pouco tempo, ter um povo acreditando em si muito mais do que já acreditou em qualquer outro momento", disse Lula, no lançamento.

Cético, o jornalista Marcelo Tass dispara: "Aí eu fiquei pensando: o Brasil é esse país lindo, cheio de riquezas minerais, praias, mulheres sensacionais, sem terremotos, nem furacões... e se além disso tudo, o melhor do Brasil é o brasileiro, então... ué, gente... então porque isso aqui não dá certo?!!" (http://marcelotas.blog.uol.com.br/).

Também repercutiu a opinião do Roger, vocal do Ultraje a Rigor (autor do sucesso que tem como refrão: "Inútil, a gente somos inútil"): "Acho que campanhas de esclarecimento são boas, mas também acho que a auto-estima deve ser legítima, deve ter uma razão de ser: acreditar que se é uma coisa sem realmente sê-lo é, no mínimo, esquizofrênico. Uma campanha destas é manipulativa e paliativa, assim como o Fome Zero. Minha auto-estima, como brasileiro, aumentará quando eu puder dizer a qualquer estrangeiro que não temos analfabetismo no país, que não somos corruptos, que nosso PIB é alto, que nossos artistas, atletas e cientistas podem viver confortavelmente aqui mesmo etc., etc., etc. Falta muito ainda. Não sou idiota, não é tapando o sol com a peneira que vamos melhorar como nação" (http://roxmo.blog.uol.com.br/).

E você, leitor? Sabe dizer por que precisamos de uma campanha de auto-estima, se o melhor do Brasil é o brasileiro?

Só vejo uma explicação: o brasileiro não sabe disso. Ou melhor, ele não sente isso.

E por que não? Talvez ele pense que é o Palhares, personagem de Nelson Rodrigues: o canalha profissional, "que deu um beijo no cangote da cunhada mais próxima". Talvez pense como Thomas Skidmore: "Deus é brasileiro, mas mudou-se para os Estados Unidos". Ou então, acredite na revista inglesa The Economist: "O Brasil não é um país doente. É um país bêbado, é diferente". Se dermos ouvidos ao antropólogo Levi-Strauss, pensaremos que "o Brasil corre o risco de ficar obsoleto antes de ficar pronto".

Vou arriscar minha resposta, enquanto você pensa na sua. O brasileiro comum é, tipicamente, um "filho desanimado"; o filho pusilânime de Efésios 6.4 e Colossenses 3.21. Provocado à ira por seus "pais", desde o tempo da colonização, ele desenvolveu uma auto-estima raquítica, de senzala. Pusilanimidade - alma pequena - advém, em grande parte, da falta de "pais" capazes de oferecer a seus filhos, em especial por seu exemplo, a versão civil da "disciplina e admoestação do Senhor". Onde estão esses pais, hoje, para que votemos neles?

Acredito que, em toda a tentação do deserto, Satanás brincou com a auto-estima de Jesus. E este venceu porque sentia, porque confiava no que ouvira no Jordão: "Este é o meu filho amado, em quem tenho todo o meu prazer".

"E vós, pais, não provoqueis vossos filhos à ira". Eis minha sugestão ao presidente.