-PUBLICADOS-57

 

 

 


 Publicados-Home


Matrix e a Verdadeira Vida

— Cristo salva de quê? Não estou morrendo afogado! — disse o colega, ao ver o plástico colado no vidro da minha Brasília.

Na hora, dei uma resposta padrão, evangelística. No entanto, senti que eu mesmo não conseguia verbalizar convincentemente um “Cristo salva” para gente como aquele colega. O que poderia ser dito ao jovem saudável, de família abastada e vida profissional promissora que o fizesse ver a necessidade de salvação? Dizer-lhe que nasceu em pecado; que o salário do pecado é a morte, mas que em Cristo pode ter vida abundante, se o receber em arrependimento e fé, como Senhor e Salvador de sua vida? Sim, certamente. Mas não sentiria estar comunicando adequadamente o evangelho. Precisava de uma parábola.

Quem poderia supor que ela adviria da trilogia Matrix? Pois veio. Assisti aos três filmes, aficionado que sou por tecnologia de ponta, ficção científica e efeitos especiais. Mas fiz uma leitura teológica, que gostaria de compartilhar.

Não sei se intencionalmente, Matrix versa sobre trevas e luz; perdição e resgate; escravidão e redenção.

Ao reagir à invasão alienígena de seres tanto mecânicos quanto orgânicos e espirituais, os humanos do futuro pensaram que poderiam cortar-lhes a fonte de energia, cobrindo o sol do planeta com uma nuvem atômica de proporções apocalípticas. Mas os invasores descobriram uma nova fonte de energia: os próprios seres humanos, agora cultivados em imensas plantações. Cada pessoa que nasce é colocada num casulo gosmento, e ligado a tubos que lhe fornecerão alimento e lhes extrairão calor do corpo. E os humanos passam suas vidas, de nenê a adulto, como baterias humanas, a energizar essa rede formidável.

O detalhe é o tubo que entra na cabeça de cada um, pela nuca. Por esse, hã, terminal, o sistema fornece a cada vítima um sonho, uma “vida”. O computador que tudo gerencia, chamado Matrix, lhe “fornece” estudos, trabalho, família, vida profissional e tudo o mais, instilado, como um filme, diretamente no cérebro. E as pessoas não têm consciência da realidade real: de que estão vegetando no casulo gosmento, em posição fetal. Quando morrem, ou perdem a “energia”, com a idade, são transformados em compostos alimentícios para os novos. Reciclagem. A cena da grande “plantação”, com sua malha de tubos e adutores é tétrica.

A história começa com um resgate. O líder de um pequeno grupo de pessoas “desplugadas”, que vive na realidade real, lutando contra os invasores, passara a vida à procura daquele que teria o dom de “ver” a Matrix, com seus mecanismos, programas e fraquezas. Teria, portanto, o poder de conduzi-los à vitória. Resgata, então, da Matrix um rapaz que, mesmo vivendo a vida fictícia fornecida pelo sistema, em seus sonhos tem visões da “realidade real” e desconfia da “realidade artificial” em que está. “Deve haver algo mais”, pensa ele. E, mesmo na vida alienada, torna-se um hábil hacker de computador, a invadir o sistema, roubar e vender informações sigilosas — informações sobre a verdadeira realidade, concluo eu — e a fugir da policia dos invasores.

Interessante: a tal ponto essa “vida” criada pela Matrix é “real” e satisfatória que muitos, ao serem “desplugados”, pedem para retornar. Não suportam a realidade real. Nesta, eles são renegados, vivendo nos escombros da civilização pós-cataclisma nuclear; naquela, eles eram ordeiros cidadãos, vivendo uma vida normal, organizada e prazeirosa.

E então, eu me dou conta da “parábola”; de que somos “escolhidos”; “desplugados” por Cristo de um sistema diabólico, onde já nascemos “mortos” (Ef 2:1) em uma “realidade falsa”. Imediatamente ouço novamente meu colega dizer: — Cristo salva de quê?

Pobre Moisés! Imagino-o tendo que suportar de seus irmãos, no Egito:

— Libertação de quê?

E a resposta “pouco convincente”:

— Desta vida falsa, desta vida de escravidão.

— E para onde vamos, Moisés?

— No momento, para o deserto.