| Conheço um homem que, no corpo ou fora do corpo, esteve em Davos, em janeiro de 2003, em busca de avivamento para a prática social da igreja brasileira. A opção do fórum de Porto Alegre foi deixada de lado, por não oferecer novidades. Já na "panela neoliberal da globalização", alguma coisa nova poderia estar sendo cozida.De fato, voltamos com tremenda visão de alavancar o setor, de forma que, em dez anos, tivéssemos abocanhado mais de 50% do mercado da fé no Brasil. Inclusive, com a cooptação de outras religiões. Isso seria feito por meio da quebra da intolerância dogmática e moral que ainda persiste em alguns setores e da profissionalização da atividade eclesiástica, dando-lhe eficiência empresarial e competitividade. O primeiro desafio, naturalmente, é econômico. Dinheiro é a base de tudo. O segundo é de natureza organizacional; o problema da fragmentação do setor. O segmento evangélico, em particular, é muito fragilizado e ineficiente. Mas Davos apresentou, como solução, um rápido processo de fusões, com imediatos ganhos de escala e organicidade. Propôs a criação de uma organização multinacional que, com a captação de recursos internacionais, já prometidos, se incumbiria de contratar jovens executivos eclesiásticos (antigos pastores), que comporiam o braço nacional da organização. Estrutura-se, então um rígido sistema de franchising, apoiado pela mídia eletrônica. As pretendentes serão "encubadas", inicialmente, com recursos da matriz, oferecendo ao seu executivo local um status dos sonhos, com salário fixo, participação nos lucros, viagens internacionais, terno e carro importados, hotéis cinco estrelas, jatinho particular, férias pagas, cartão de crédito e celular sem limite e prêmios de produtividade, chamados "mamonetas". O caráter "global e social" do empreendimento garantirá a obtenção das concessões governamentais (canais de televisão, terrenos, isenções fiscais etc.) bem como a obtenção de poder na política local e nacional. Poder, então, será a chave para seduzir as unidades locais, com a oferta do sucesso e da segurança do "guarda-chuva" de um grupo de âmbito nacional, com recursos capazes de fazer o setor funcionar (depois do necessário saneamento). Nas comunidades onde houver resistência de pastores retrógrados, criar-se-á uma unidade nova, para fazer dumping eclesiástico. Essa unidade modelo terá também a função de estabelecer o padrão para todas as demais franqueadas que, com o tempo, e apoio de interventores, se ajustarão, por meio de reformas. Ela será moderna, bonita, com estacionamento coberto, mil assentos estofados, ar-condicionado, creche, berçário (aos cuidados de profissionais), sonorização padrão e excelente equipamento musical. O executivo dessa unidade será escolhido a dedo. Bom administrador e empreendedor agressivo, será treinado para suprir, liturgicamente, as necessidades dos seus consumidores, que variam de cultos tradicionais a "louvorzões dançantes", com promoções específicas para jovens e mulheres. Como novidade litúrgica, ele realizará sorteios dominicais de carros, aparelhos eletrônicos, bíblias e CDs, premiando os dizimistas com carnê em dia e também a assiduidade. Estima-se que, em pouco tempo, as resistências locais desaparecerão. Passaremos, então, à consolidação da organização, junto aos executivos eclesiásticos, com treinamentos de imersão, envolvendo mudança de visão e, finalmente, a implantação de agressivas metas de produção, associadas a mecanismos de premiação dos melhores e substituição dos menos lucrativos. A essas alturas, teremos superado a fase mística, familiar e comunitária de igreja. Fase em que críamos em serviço abnegado em vez de dinheiro, poder e sexo, como alicerces do sucesso. Acreditávamos, pasmem, que Deus escolheu as cousas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e escolheu as cousas fracas do mundo para envergonhar as fortes (1Co 1:27). |