|
Revesti-vos
de toda a armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra
os estratagemas do diabo - Efésios 6:11.
Bem
aventurado aquele que não se condena nas coisas que aprova
- Romanos 14:22b.
O que acontece quando
uma gota de detergente cai numa tampa de panela engordurada?
Já parei para ficar observando de perto. Há uma
reação química violenta. O resultado é
algo que não é mais gordura nem detergente. Algo
fácil de escorrer ralo abaixo. Inerte, inativo, neutro.
Quero associar o tema
da guerra espiritual a esse fenômeno corriqueiro de toda
cozinha.
Imagine, leitor, que
sua alma seja essa tampa de panela. A cobri-la, de forma protetora,
há sua consciência, seus valores éticos e
morais, que é o óleo (no caso, inclusive, o óleo
do Espírito Santo) que a envolve. É essa tampa
que o detergente do mal vai querer destruir, através da
neutralização do óleo. Veja que o detergente
não vai atuar diretamente sobre a tampa. Dela, a ferrugem
e a sujeira cuidarão. O detergente, enquanto estratagema
satânico, é apenas uma forma de neutralizar suas
proteções éticas. Neutralizada sua consciência
cristã, o resto é fácil. Aberto um buraco
na sua armadura, chegar ao coração não será
problema.
A Guerra Interna
O apóstolo Paulo
adverte os crentes de Roma sobre um tipo muito sutil de guerra
espiritual. Aquela em que nos condenamos nas coisas que aprovamos.
Mesmo que não cheguemos a ser os agentes dessas coisas.
Não se condenar naquilo que aprova, no pensamento de Paulo,
é um tipo de guerra de consciência, na qual o prêmio
é a própria alma. Trata-se de guerra espiritual
das mais difíceis, porque parece que não se quer
atingir a tampa da panela. E o óleo, ao nosso ver, não
tem a menor importância. O que importa, imaginamos, é
nossa alma; os ataques à nossa ética não
produzem prejuízos, enquanto nossas almas estiverem intactas.
Não misturar
detergente no seu óleo, no entanto, quer dizer não
permitir o derretimento de seus princípios e valores éticos.
Quer dizer não se permitir antimatéria espiritual.
Isso porque, uma vez diluídos esses "óleos",
nossa alma está em perigo. Exposta às corrosões.
Vulnerável até a ataques internos, de nossas vontades
nem sempre muito corretas.
Detergentes Modernos
Apenas a título
de exemplificação, gostaríamos de apresentar
alguns exemplos de como esse embate mortal atinge a igreja; em
particular, a igreja de nosso tempo. A igreja do terceiro milênio.
E muito em particular, os jovens.
O detergente cai no
azeite quando, em nome da paz na igreja já não
discutimos mais com os irmãos. À primeira vista,
isso parece bom. O pastor vê com bons olhos a calmaria.
Mas é terrível quando essa paz provém da
indiferença a que nos entregamos, que mata a igreja mais
do que a própria inimizade. Essa paz é enganosa,
pois não provém do Espírito, mas, ao contrário,
do mundo. Essa ameaça, tão moderna e corriqueira
entre nós, parece-nos inócua e geralmente invisível.
Daí seu terrível poder de destruição
da igreja; porque destrói o que nos é mais caro:
a comunhão; o corpo. A parede da inimizade, destruída
por Cristo (1) é reconstruída com material sintético,
transparente, altamente resistente: a parede da não-amizade.
O detergente cai no
azeite quando, em nome do bom andamento dos trabalhos, já
não participamos, nem reagimos a nada: não trazemos
mais problemas. Que maravilha, pensa o pastor. Aquele grupinho
que sempre agitava as reuniões e discussões; que
vivia propondo idéias e criando polêmicas, sossegou.
À primeira vista, pode ser bom. Mas se não provém
de liberdade com caridade, mas de apatia, então não
é coisa de Deus.
O detergente cai no
azeite quando, com medo da dor da separação, da
indiferença, da maledicência ou da traição,
vamos nos afastando dos irmãos e preferimos o discreto
isolamento. O pastor pode ver nossa atitude como de um promissor
recolhimento espiritual, ou um amadurecimento na direção
da humildade e mansidão, tal a nossa "discrição"
na comunidade. Mas na verdade, se estivermos falando de individualismo
— cansei da vida comunitária e, ainda que permaneça
na igreja, isolo-me e cuido da minha própria vida —
estaremos diante de um dos maiores detergentes do espírito
de que se tem falado na história da igreja. Isso porque,
o individualismo é, quando compreendido e vivido na forma
como o mundo o propõe hoje, a negação da
própria Aliança — marca registrada da igreja.
O detergente cai no
azeite quando, em nome da paz que Cristo veio trazer, desenvolvemos
distância e indiferença em relação
ao sofrimento alheio. Sim, porque quando olho para um mendigo,
acabo perdendo a fome e a paz, impressionado que fico com sua
condição de miséria. "Mas não
é para viver afligido que Deus me chamou. Ao contrário,
ele me chamou para a paz e alegria". Com esse tipo de argumento
não consciente, acabamos por evitar o contato com os pobres,
doentes, presos e oprimidos em geral.
O detergente cai no
azeite quando, em nome do conforto e por causa de um certo e
indefinível cansaço, já não lutamos
contra a injustiça, a pobreza, a opressão, debaixo
do nosso nariz. A gente luta, fala, discute, mas não dá
em nada. Melhor mesmo é cuidar da nossa vida. Isso me
lembra uma música que meu pai cantava: "De manhãzinha
olho pra rocinha/ Pra ver se às veis nasceu quarqué
coisinha/ Mas quar o quê não nasceu nada não/
Prantando nasce mas não pranto não.//Ô vida
marvada/ Num dianta fazer nada/ Pra quê sisforçá/
Se não vale a pena trabalhá".
O detergente cai no
azeite quando, em nome da liberdade, deixamo-nos seduzir (olhe
bem, não é convencer) por slogans paupérrimos,
tais como: pega bem fumar Dallas, ou "elas vão pensar
que você está nadando em dinheiro quando você
chegar com uma bolsa da Le Postiche". O detergente consiste
em que não aceitamos mais argumentações,
porque o mundo de hoje não argumenta, seduz.
O detergente cai no
azeite quando, em nome do direito ao relaxamento e conforto,
depois de um dia estressante, quedamo-nos impassíveis
diante da pornografia na televisão. Pornografia, por definição,
são imagens, sons ou sugestões, de natureza depravada,
que agridem nossa consciência de moralidade sexual.
O detergente cai no
azeite quando, em nome do nosso direito de provar tudo e reter
o que é bom, passamos a vida "examinando" as
sugestões de "pegadinhas", "carecas"
"ralas e rolas" e "sexolândias" do
Faustão, Gugu Liberato e outros "patriotas".
O pior é que examinamos tanto, que acabamos tendo que
achar algo bom, para justificar tanto exame. E acabamos nos convencendo
disso. Ou então, achamos engraçadas as sugestões
veladas do bem-sucedido "Casseta e Planeta", cujo símbolo
é um bicho de maçã, saindo do globo, numa
clara e debochada alusão fálica que corrói
o mundo por dentro.
O detergente cai no
azeite quando passamos uma tarde inteirinha de domingo expostos
a esse tipo de, digamos, inspiração, e depois não
compreendemos porque o culto da noite é tão fraco
e pouco espiritual; as orações tão entediantes,
os testemunhos tão chatos (quando os há), as crianças
tão barulhentas, os corinhos tão surrados etc.
Nossa igreja está precisando de um avivamento... (ainda
bem que reservamos um bom filme na locadora, para terminar o
domingo e começar a semana bem relaxados: "os segredos
íntimos de Lola", ou "Diário de uma prisão
de mulheres").
Por causa disso tudo,
já nem nos envergonhamos quando assistimos, junto com
outras pessoas na sala, a senhorita Ilca Tibiriçá,
da novela da Globo, sonhar sonhos eróticos que, quando
muito poderiam ser apenas sugeridos, mas são minuciosamente
apresentados e interpretados, por meio de palavras e gestos,
com objetivos de realismo ou de fazer graça. É
o meio de comunicação, que se identifica com o
homem da rua e fala sua linguagem. E, pilhados em nossa poltrona,
achamos engraçado. Ficamos como quem não pode reclamar
de uma piada indecente, porque não conseguimos conter
o riso, e o riso nos torna coniventes. O riso autoriza tudo,
em nossa cultura "popular".
Da Democracia à
Pornocracia
Quando cai detergente
no nosso azeite moral, já não há governo
do povo, mas governo da aberração, do erotismo,
do indecente, da tara. Tudo isso sutilmente instilado em sua
alma. Sem violência, sem agressão aparente. Até,
naturalmente, você esboçar uma reação.
Aí a coisa muda. É mais ou menos como nadar rio
abaixo. Você só percebe sua força quando
quiser mudar de direção. Experimente se insurgir
publicamente contra a imoralidade nos meios de comunicação
de massa, e verá a força do sistema. Você
será compelido a calar-se por forças intimidatórias
de toda natureza. A principal, no entanto, será a demonstração
cabal de que você já não é normal;
não é dos nossos, não é moderno,
não é do nosso time. Você será levado
a compreender que a aberração é você!
Antes a nossa guerra
fosse contra as visíveis e concretas feras do Coliseu;
antes a nossa guerra fosse contra as ideológicas e humanas
cortinas de ferro; antes a nossa guerra fosse contra grosseiras
ditaduras militares. Mas nossa guerra é contra principados
e potestades, contra espíritos dominadores, contra estratagemas
satânicos e sistemas de vida que jazem no maligno e nos
seduzem com uma volúpia irresistível. Nossa guerra,
hoje, primordialmente, é contra a sedução
ou imposição do mal, contra a conivência
que contamina, contra a anuência que entorpece, contra
o "deliciosamente sensual" que nos fascina, contra
o que hoje é considerado por todos como natural. A normalidade
da bancas de revistas, dos motéis de alta rotatividade,
dos bicheiros em prisões de luxo, com telefone celular
e tudo.
A Cilada do Sistema
O estratagema, no caso,
leitor, é nos tornar tão acostumados com tudo isso,
que nossa mente já não reclame. O ataque ético
não começa com a mulher do Globeleza nua em pêlo,
a cada intervalo; ela vai tirando a roupa aos pouquinhos, por
anos a fio. Quando você percebe, até seu presidente
da República está aparecendo para o mundo inteiro
ao lado de uma modelo sem calcinha, sem nenhum problema.
O sistema só
lhe pede uma coisa: não reaja. Porque, seja por preguiça
de levantar-se e sair da rodinha, seja por falta de condições
de discordar do amigo, seja porque já vai mudar de programa
na televisão, seja porque há artigos bons, também,
nesta revista Playboy, seja porque for, se você consentir
em não ter esse trabalho, ou incômodo, ou prejuízo,
"nós fazemos o resto"; nós pegamos você.
Em pouco tempo você já não será mais
tão ultrapassado e moralista. Este estratagema tem um
nome técnico nos meios intelectuais da comunicação
de massa: anuência. E a anuência está para
a aprovação assim como a permissão está
para a ordem. Estão tão próximos que você
nem perceberá quando tiver feito a passagem.
Bem-aventurado aquele
que não perde essa guerra pessoal, permitindo que o inimigo
derreta, como quando o detergente cai no óleo, as defesas
da sua alma.
(1) Efésios 2: 2:14
|