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Igreja e Ética
A verdadeira guerra espiritual do final do milênio (2T/98)


Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para poderdes ficar firmes contra os estratagemas do diabo - Efésios 6:11.

Bem aventurado aquele que não se condena nas coisas que aprova - Romanos 14:22b.

 

O que acontece quando uma gota de detergente cai numa tampa de panela engordurada? Já parei para ficar observando de perto. Há uma reação química violenta. O resultado é algo que não é mais gordura nem detergente. Algo fácil de escorrer ralo abaixo. Inerte, inativo, neutro.

Quero associar o tema da guerra espiritual a esse fenômeno corriqueiro de toda cozinha.

Imagine, leitor, que sua alma seja essa tampa de panela. A cobri-la, de forma protetora, há sua consciência, seus valores éticos e morais, que é o óleo (no caso, inclusive, o óleo do Espírito Santo) que a envolve. É essa tampa que o detergente do mal vai querer destruir, através da neutralização do óleo. Veja que o detergente não vai atuar diretamente sobre a tampa. Dela, a ferrugem e a sujeira cuidarão. O detergente, enquanto estratagema satânico, é apenas uma forma de neutralizar suas proteções éticas. Neutralizada sua consciência cristã, o resto é fácil. Aberto um buraco na sua armadura, chegar ao coração não será problema.

A Guerra Interna

O apóstolo Paulo adverte os crentes de Roma sobre um tipo muito sutil de guerra espiritual. Aquela em que nos condenamos nas coisas que aprovamos. Mesmo que não cheguemos a ser os agentes dessas coisas. Não se condenar naquilo que aprova, no pensamento de Paulo, é um tipo de guerra de consciência, na qual o prêmio é a própria alma. Trata-se de guerra espiritual das mais difíceis, porque parece que não se quer atingir a tampa da panela. E o óleo, ao nosso ver, não tem a menor importância. O que importa, imaginamos, é nossa alma; os ataques à nossa ética não produzem prejuízos, enquanto nossas almas estiverem intactas.

Não misturar detergente no seu óleo, no entanto, quer dizer não permitir o derretimento de seus princípios e valores éticos. Quer dizer não se permitir antimatéria espiritual. Isso porque, uma vez diluídos esses "óleos", nossa alma está em perigo. Exposta às corrosões. Vulnerável até a ataques internos, de nossas vontades nem sempre muito corretas.

Detergentes Modernos

Apenas a título de exemplificação, gostaríamos de apresentar alguns exemplos de como esse embate mortal atinge a igreja; em particular, a igreja de nosso tempo. A igreja do terceiro milênio. E muito em particular, os jovens.

O detergente cai no azeite quando, em nome da paz na igreja já não discutimos mais com os irmãos. À primeira vista, isso parece bom. O pastor vê com bons olhos a calmaria. Mas é terrível quando essa paz provém da indiferença a que nos entregamos, que mata a igreja mais do que a própria inimizade. Essa paz é enganosa, pois não provém do Espírito, mas, ao contrário, do mundo. Essa ameaça, tão moderna e corriqueira entre nós, parece-nos inócua e geralmente invisível. Daí seu terrível poder de destruição da igreja; porque destrói o que nos é mais caro: a comunhão; o corpo. A parede da inimizade, destruída por Cristo (1) é reconstruída com material sintético, transparente, altamente resistente: a parede da não-amizade.

O detergente cai no azeite quando, em nome do bom andamento dos trabalhos, já não participamos, nem reagimos a nada: não trazemos mais problemas. Que maravilha, pensa o pastor. Aquele grupinho que sempre agitava as reuniões e discussões; que vivia propondo idéias e criando polêmicas, sossegou. À primeira vista, pode ser bom. Mas se não provém de liberdade com caridade, mas de apatia, então não é coisa de Deus.

O detergente cai no azeite quando, com medo da dor da separação, da indiferença, da maledicência ou da traição, vamos nos afastando dos irmãos e preferimos o discreto isolamento. O pastor pode ver nossa atitude como de um promissor recolhimento espiritual, ou um amadurecimento na direção da humildade e mansidão, tal a nossa "discrição" na comunidade. Mas na verdade, se estivermos falando de individualismo — cansei da vida comunitária e, ainda que permaneça na igreja, isolo-me e cuido da minha própria vida — estaremos diante de um dos maiores detergentes do espírito de que se tem falado na história da igreja. Isso porque, o individualismo é, quando compreendido e vivido na forma como o mundo o propõe hoje, a negação da própria Aliança — marca registrada da igreja.

O detergente cai no azeite quando, em nome da paz que Cristo veio trazer, desenvolvemos distância e indiferença em relação ao sofrimento alheio. Sim, porque quando olho para um mendigo, acabo perdendo a fome e a paz, impressionado que fico com sua condição de miséria. "Mas não é para viver afligido que Deus me chamou. Ao contrário, ele me chamou para a paz e alegria". Com esse tipo de argumento não consciente, acabamos por evitar o contato com os pobres, doentes, presos e oprimidos em geral.

O detergente cai no azeite quando, em nome do conforto e por causa de um certo e indefinível cansaço, já não lutamos contra a injustiça, a pobreza, a opressão, debaixo do nosso nariz. A gente luta, fala, discute, mas não dá em nada. Melhor mesmo é cuidar da nossa vida. Isso me lembra uma música que meu pai cantava: "De manhãzinha olho pra rocinha/ Pra ver se às veis nasceu quarqué coisinha/ Mas quar o quê não nasceu nada não/ Prantando nasce mas não pranto não.//Ô vida marvada/ Num dianta fazer nada/ Pra quê sisforçá/ Se não vale a pena trabalhá".

O detergente cai no azeite quando, em nome da liberdade, deixamo-nos seduzir (olhe bem, não é convencer) por slogans paupérrimos, tais como: pega bem fumar Dallas, ou "elas vão pensar que você está nadando em dinheiro quando você chegar com uma bolsa da Le Postiche". O detergente consiste em que não aceitamos mais argumentações, porque o mundo de hoje não argumenta, seduz.

O detergente cai no azeite quando, em nome do direito ao relaxamento e conforto, depois de um dia estressante, quedamo-nos impassíveis diante da pornografia na televisão. Pornografia, por definição, são imagens, sons ou sugestões, de natureza depravada, que agridem nossa consciência de moralidade sexual.

O detergente cai no azeite quando, em nome do nosso direito de provar tudo e reter o que é bom, passamos a vida "examinando" as sugestões de "pegadinhas", "carecas" "ralas e rolas" e "sexolândias" do Faustão, Gugu Liberato e outros "patriotas". O pior é que examinamos tanto, que acabamos tendo que achar algo bom, para justificar tanto exame. E acabamos nos convencendo disso. Ou então, achamos engraçadas as sugestões veladas do bem-sucedido "Casseta e Planeta", cujo símbolo é um bicho de maçã, saindo do globo, numa clara e debochada alusão fálica que corrói o mundo por dentro.

O detergente cai no azeite quando passamos uma tarde inteirinha de domingo expostos a esse tipo de, digamos, inspiração, e depois não compreendemos porque o culto da noite é tão fraco e pouco espiritual; as orações tão entediantes, os testemunhos tão chatos (quando os há), as crianças tão barulhentas, os corinhos tão surrados etc. Nossa igreja está precisando de um avivamento... (ainda bem que reservamos um bom filme na locadora, para terminar o domingo e começar a semana bem relaxados: "os segredos íntimos de Lola", ou "Diário de uma prisão de mulheres").

Por causa disso tudo, já nem nos envergonhamos quando assistimos, junto com outras pessoas na sala, a senhorita Ilca Tibiriçá, da novela da Globo, sonhar sonhos eróticos que, quando muito poderiam ser apenas sugeridos, mas são minuciosamente apresentados e interpretados, por meio de palavras e gestos, com objetivos de realismo ou de fazer graça. É o meio de comunicação, que se identifica com o homem da rua e fala sua linguagem. E, pilhados em nossa poltrona, achamos engraçado. Ficamos como quem não pode reclamar de uma piada indecente, porque não conseguimos conter o riso, e o riso nos torna coniventes. O riso autoriza tudo, em nossa cultura "popular".

Da Democracia à Pornocracia

Quando cai detergente no nosso azeite moral, já não há governo do povo, mas governo da aberração, do erotismo, do indecente, da tara. Tudo isso sutilmente instilado em sua alma. Sem violência, sem agressão aparente. Até, naturalmente, você esboçar uma reação. Aí a coisa muda. É mais ou menos como nadar rio abaixo. Você só percebe sua força quando quiser mudar de direção. Experimente se insurgir publicamente contra a imoralidade nos meios de comunicação de massa, e verá a força do sistema. Você será compelido a calar-se por forças intimidatórias de toda natureza. A principal, no entanto, será a demonstração cabal de que você já não é normal; não é dos nossos, não é moderno, não é do nosso time. Você será levado a compreender que a aberração é você!

Antes a nossa guerra fosse contra as visíveis e concretas feras do Coliseu; antes a nossa guerra fosse contra as ideológicas e humanas cortinas de ferro; antes a nossa guerra fosse contra grosseiras ditaduras militares. Mas nossa guerra é contra principados e potestades, contra espíritos dominadores, contra estratagemas satânicos e sistemas de vida que jazem no maligno e nos seduzem com uma volúpia irresistível. Nossa guerra, hoje, primordialmente, é contra a sedução ou imposição do mal, contra a conivência que contamina, contra a anuência que entorpece, contra o "deliciosamente sensual" que nos fascina, contra o que hoje é considerado por todos como natural. A normalidade da bancas de revistas, dos motéis de alta rotatividade, dos bicheiros em prisões de luxo, com telefone celular e tudo.

A Cilada do Sistema

O estratagema, no caso, leitor, é nos tornar tão acostumados com tudo isso, que nossa mente já não reclame. O ataque ético não começa com a mulher do Globeleza nua em pêlo, a cada intervalo; ela vai tirando a roupa aos pouquinhos, por anos a fio. Quando você percebe, até seu presidente da República está aparecendo para o mundo inteiro ao lado de uma modelo sem calcinha, sem nenhum problema.

O sistema só lhe pede uma coisa: não reaja. Porque, seja por preguiça de levantar-se e sair da rodinha, seja por falta de condições de discordar do amigo, seja porque já vai mudar de programa na televisão, seja porque há artigos bons, também, nesta revista Playboy, seja porque for, se você consentir em não ter esse trabalho, ou incômodo, ou prejuízo, "nós fazemos o resto"; nós pegamos você. Em pouco tempo você já não será mais tão ultrapassado e moralista. Este estratagema tem um nome técnico nos meios intelectuais da comunicação de massa: anuência. E a anuência está para a aprovação assim como a permissão está para a ordem. Estão tão próximos que você nem perceberá quando tiver feito a passagem.

Bem-aventurado aquele que não perde essa guerra pessoal, permitindo que o inimigo derreta, como quando o detergente cai no óleo, as defesas da sua alma.


(1) Efésios 2: 2:14