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Eticorragia
(Liderança, out./96)


E que governe bem a sua própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo respeito (pois se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?) - 1Tm. 3:4,5.

Estou lendo o jornal de hoje, e uma das manchetes de primeira página é a seguinte, literis:

"Terra de Ninguém — é Alagoas, onde a polícia está em greve, o IML não funciona, os cartórios fecharam e a sede da Guarda Municipal foi incendiada ontem."

No interior do jornal se explica a calamidade administrativa do Estado:

"Com o salários atrasados há meses, os policiais civis estão em greve e os policiais militares estão aquartelados. Até a Guarda Municipal, mantida pela prefeitura de Maceió, foi desmobilizada pelo prefeito Ronaldo Lessa, depois que alguns desconhecidos colocaram fogo no arquivo e depósito da guarda."

E continua:

"A greve da Polícia Civil e o aquartelamento da PM estão provocando o aumento de assaltos a banco em Maceió."

Explicar o que está acontecendo com Alagoas é explicar o Brasil, pois as coisas não estão muito diferentes em boa parte de nosso país. Na verdade, todo mundo sabe um pouco da resposta. Exceto os nossos políticos, talvez. O pior cego é aquele que não quer ver.

O governador do Estado, aliás como todos fazem, diz que o problema é falta de dinheiro para pagar os funcionários, que não recebem desde março. E onde foi parar esse dinheiro? A resposta é sempre a mesma. Ah, isso é problema recebido do governo anterior, que fez isso e aquilo. Ninguém tem culpa de nada. Ninguém é mau gestor, improubo, ladrão. Nem os famosos sete anões.

Vivemos numa sociedade diabética. Mas não estamos falando do conhecido distúrbio do metabolismo dos açúcares, caracterizado por hiperglicemia com ou sem glicosúria, não. Estamos falando de outra doença. Estamos falando de uma sociopatia. Na diabetes, você tem problemas com hemorragias. Na diabética, você tem problemas com eticorragia. Uma é mal pessoal. A outra, social.

Vivemos um tempo em que nossa sociedade se esvai na perda de seu "sangue vital". E o sangue da sociedade é — com o testemunho da grande maioria dos sociólogos — a ética. Daí os trocadilhos: diabética (uma doença relacionada com ética) e eticorragia (um distúrbio em que o organismo não consegue reter seu fluido vital).

Eticorragia

Costumamos entender a questão da ética na política como uma questão simples: os políticos precisam parar de roubar. Aí, tudo se resolve. Más notícias: é muito mais que isso (nem caberia neste artigo, por isso, ficamos com alguns breves comentários).

A eticorragia se manifesta quando uma pessoa despreparada para um cargo o assume, por indicações políticas. Parece que pouco se preocupam nossos políticos se o indicado a ministro da fazenda tem suas contas domésticas em ordem. Não importa se ele é um falido. Vai dirigir bem a pasta. Temos, é claro, honrosas excessões, como o caso de Pelé nos Esportes e Jatene na Saúde. Mas serão bons ministros? Você já reparou como os ministros são cheios de soluções depois que deixam o cargo (e desandam a dar conselhos e a fazer críticas ao seu sucessor)?

A eticorragia aparece quando a sociedade de tal forma perde a noção de honra que todos sentem, de uma forma difusa, que as autoridades estão sempre roubando. Vamos a um teste: você acredita que aquela obra pública que seu prefeito está fazendo vale o que ele está pagando à empreiteira? Eu também não. A probabilidade de ele estar "levando algum", é muito grande. Mas quando isso atinge o inconsciente de uma população, mesmo que este ou aquele sejam honestos, vai ser difícil crer. Por exemplo. O governo federal foi pilhado pela imprensa, aumentando a conta da luz em 72%. E do telefone, em 200%. Ao mesmo tempo em que diz às empresas que aumento, agora, é falta de patriotismo. Não falou nada, planejou em silêncio. Por que não anunciou? Por que não explicou que era necessário, sei lá? Nada! Essas coisas vão produzindo um estado de ânimo na população, em que cada um quer salvar o seu. Eticorragia. E Alagoas é apenas um exemplo de onde as coisas podem chegar. Para quem quer ver.

Atualmente, o Departamento de Censura Classificatória do Ministério da Justiça está negociando com as empresas de comunicação social um meio pelo qual elas mesmas façam a classificação de sua programação. E quem são esses classificadores? Conhecem os efeitos da sensualidade vulgar e da violência sobre a alma das crianças e adolescentes? Têm filhos saudáveis, éticos? Ou será que o galinheiro vai ser deixado por conta da raposa?

Quando cidadãos pacatos começam a se matar descontroladamente, as autoridades saem com um programa de desarmamento. Resolve? Quando o trânsito se tornou em praça de guerra, vem o programa "Pare", do Ministério dos Transportes. Mas nem o próprio coordenador da campanha, o ministro dos transportes é capaz de dar socorro à sua vítima: atropela, mata e se esconde.

Perdido, irmão? Apenas uma paráfrase das Escrituras: "E que governe bem a sua própria casa ... pois se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará do governo?"