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...tu,
pois, que ensinas a outrem, não te ensinas a ti mesmo?
- Rm 2:21
Introdução
É longo e penoso
o caminho que conduz do interior da casa para a janela. Às
vezes é bem dolorido o processo de abertura da janela,
que dá para fora.
Em seu famoso sermão
do monte, Jesus descreve o processo pelo qual o indivíduo
faz uma peregrinação do profundo de si mesmo para
a janela de sua vida. Ele começa lá no porão
da casa, dizendo que ele, quando descobre sua própria
fragilidade, sua falência espiritual, suas fraquezas morais
e éticas, suas incapacidades, seu pecado insistente e
sua desesperança, em termos de redenção
própria; ou seja, descobre que não consegue sair
dessa situação sozinho, porque não tem recursos
espirituais para tal, então ele percebe que necessita
de misericórdia de quem possa ajudá-lo.
Quando esse mesmo indivíduo
chega diante do quadro triste de sua falência, chora um
choro redentivo, libertador, de quem constata, aceita e entrega
a sua fraqueza; um choro de quem espera ajuda. Tal indivíduo
é um bem-aventurado. De acordo com Jesus, ele ganhou a
sorte grande.
Eu chamo esses dois
momentos das bem-aventuranças de "momentos de porão".
São momentos íntimos "de pijama"; momentos
solitários da alma, em que o indivíduo tem um vislumbre
verdadeiro de si mesmo, concedido pela graça de Deus,
e descobre que não é nada; que não tem recursos.
Do primeiro, diz Jesus, é o reino dos céus; do
segundo, é o consolo.
A terceira bem-aventurança
se refere aos mansos. O momento em que o indivíduo começa
a sair de seu porão e caminhar na direção
da janela é uma situação em que as outras
pessoas são envolvidas nessas turbulências da alma.
A sua consciência de falência e o seu choro libertador
o levam à simplicidade de vida, à consciência
de que não é senhor de seu destino, nem mesmo de
seus bens e direitos; e isso o torna manso. Um indivíduo
gentil, hospitaleiro, bondoso, voltado para os outros.
Como conseqüência
disso tudo, essa pessoa chega à janela de sua vida e a
abre, e encontra um mundo imperfeito, cheio de injustiças.
Um mundo de invejas, de lutas pelo poder, de medos, de egoísmos,
de maldades. A terceira palavra de Jesus diz, então, que
estes são felizes, quando têm fome e sede de justiça,
e que serão fartos disso.
A pergunta que surge,
imediatamente, para nós, é a relevância que
tenha essa fome e sede entre os filhos de Deus. No mundo em que
vivemos hoje, o que significa fome e sede de justiça?
O que isso quer dizer para a igreja evangélica do Brasil;
do início do século XXI? Que diferença isso
deve fazer em nossa sociedade, hoje?
Não é
preciso muita argumentação para demonstrar que
nossa sociedade é injusta. Ainda mais quando pensamos
em globalização e neoliberalismo, que no Brasil
recente tem sido causas de exclusão. Na luta pela eficiência
das empresas, que agora têm que competir num mercado global,
o chamado "desemprego tecnológico" atinge cruelmente
os menos preparados, os mais velhos, os inaptos. É a dura
lei da seleção natural: só os mais fortes
sobrevivem. Só quem consegue estudar sobrevive num mundo
em que as pessoas estão sendo substituídas por
máquinas.
Por outro lado, vemos
que os pobres vão ficando cada vez mais pobres, enquanto
a renda se concentra nas mãos de grandes conglomerados
industriais e financeiros. Vemos um Estado falido, em que a justiça
não atua mais, e a gente não sabe se deve chamar
a polícia ou o ladrão. E nossas cadeias se transformam
em pocilgas abarrotadas, fábricas de monstros.
Quando a disputa por
reeleição mais parece um leilão público
de bens da nação, e diante dos discursos emocionantes
dos candidatos temos a certeza de que é tudo mentira,
e que estamos sendo roubados, mas não temos alternativas
de votos, porque é tudo uma corja só; quando o
próprio ministro da Justiça, dito evangélico,
apresenta ao Congresso o projeto de lei que legaliza os cassinos
no Brasil, chegamos à conclusão que estamos longe
de um país justo.
Então, torna-se
inevitável a pergunta: que diferença faz a igreja?
Que diferença faz esse cidadão do reino que tem
fome e sede de justiça?
Justiça
Existe entre os teólogos
uma discussão sobre o significado da palavra "justiça"
nessa bem-aventurança. O que Jesus estaria querendo dizer
com uma pessoa que tem fome e sede de justiça?
Existem três posições
mais claras, sobre a questão. A primeira, diz que se trata
de igualdade de oportunidades, direitos e deveres, apoiados em
fundamentos morais tais como verdade, igualdade e fraternidade.
Uma situação onde não haja mais pobres e
ricos, sãos e doentes; camisados e descamisados; opressores
e oprimidos, acadêmicos e analfabetos. Pensam, enfim, em
uma igualdade possível entre os homens. Isso seria justiça.
Outros pensam que essa
justiça é um processo de justificação
do homem, da forma como o apóstolo Paulo o apresenta.
Um processo pelo qual Deus torna o ímpio justo, através
do sacrifício vicário e expiatório de Jesus.
Explicando: um sacrifício que vale para os outros e que
paga integralmente a conta. Assim, Deus torna o injusto justificado.
Nesse caso, o cidadão do reino, descrito nas bem-aventuranças,
seria uma pessoa que tem fome e sede (significando necessidade
profunda) dessa justificação, dessa redenção,
dessas vestiduras brancas.
A terceira forma de
entender a palavra "justiça", neste texto, faz
uma associação com a parábola do fariseu
e do publicano, de Lucas 18: 9-14. Ali, Lucas diz que Jesus a
apresentou porque pessoas confiavam em si mesmas, por se considerarem
justas, e desprezavam os outros. Esses não tinham fome
e sede de justiça, porque já eram justos.
O que quer dizer o termo
"justo", nesta parábola de Jesus? Quer dizer
"separado por Deus", "escolhido por Deus",
"OK" com Deus. Portanto, trazendo para nossa linguagem,
"justo", aqui, quer dizer, simplesmente, santo. Os
justos são os santos.
Eu penso que Jesus está
trabalhando nesse sentido profundo, quando diz fome e sede de
justiça. Esse cidadão do reino, que descobriu que
não é nada, que chora pelas suas mazelas, pela
sua falência e que é, conseqüentemente manso,
tem uma fome, uma sede, uma compulsão por buscar santidade.
Muitas vezes não
entendemos bem essa bem-aventurança, no entanto, porque
não entendemos bem o significado do termo santidade. Na
verdade, sem entender bem este termo, não sabemos bem
o que buscar, em termos de alvos para nossa vida cristã.
Imaginamos que o termo esteja se referindo a um estado de alma,
ainda no estágio do "porão", a que nos
referimos. Mas veja que essa pessoa começou com a "humildade
de espírito", passou pelo choro, chegou à
janela de si mesmo, com a mansidão (uma predisposição,
uma atitude, já voltada para os outros), e agora abriu
a janela, para viver com os outros.
Santidade não
existe no porão, a não ser numa forma muito limitada.
Santidade é uma qualidade relacional. Só existe
em relação aos outros. Não se pode falar
de um santo numa ilha deserta. Ele só é santo quando
perdoa os outros; quando é bondoso com os outros, quando
ama os outros, quando ajuda, incentiva, abençoa etc. —
os outros.
Quando Deus requer de
nós santidade, quer que vivamos em comunhão. Quer
que vivamos bem, uns com os outros. E se apresenta, na forma
da Santíssima Trindade, como o modelo de santidade. Um
deus triúno. Um grande mistério: três que
vivem tão unidos que se apresentam como um.
Imagine, apenas para
exemplificar, o Pai zangado com o Filho; o Filho magoado com
o Pai, e o Espírito Santo querendo umas férias...
Já não poderíamos falar de santidade. Pelo
menos, no sentido absoluto, imaculado, em que compreendemos a
Trindade.
Não existe justiça;
não existe o justo, numa ilha deserta. Só ele.
Ali, a expressão "fome e sede de justiça"
não lhe fará o menor sentido.
Minha avó dizia
assim: "Quer conhecer um homem? Pisa no calo dele."
É na hora que os outros nos magoam, é na hora que
os outros nos desprezam; é no relacionamento com os outros
que eu descubro as verdades sobre minha santidade, sobre minha
justiça.
Fome e sede de justiça
é uma busca por ser como Deus. Na igreja ela se manifesta
como uma compulsão interna, como uma necessidade que,
se não for suprida, nos leva à morte, exatamente
como a falta de água ou comida. Uma necessidade de sermos
justos. Uma justiça social. Talvez aqui já possamos
compreender o que o Cristianismo entende por justiça social.
Em muitos aspectos a expressão significa o mesmo que para
um sociólogo. Tem, no entanto, uma origem muito mais profunda,
e menos ideológica. No caso do cidadão do reino,
ela surge como resultado dessa caminhada do "porão"
para a "janela" da vida.
Igreja e Justiça
A questão que
surge, imediatamente, dessa definição, dessa conceituação,
pode ser colocada nos seguintes termos: quais são as implicações,
práticas, visíveis, concretas, dessa fome e sede
de justiça entre os filhos de Deus? Como essa bem-aventurança
atinge a sociedade? Que efeitos produz sobre a sociedade, quando
ela existe, quando ela é verdadeira, quando ela é
uma manifestação do reino de Deus entre os homens?
Uma primeira coisa que
se deve pensar é que essas pessoas têm uma promessa
do próprio Cristo: serão fartas. Mas serão
fartas de quê? Aqui está o ponto: Jesus não
está dizendo que serão fartas de felicidade, mas
de justiça. Aqueles que buscam santidade, serão
fartos dela.
Mas pensamos que seremos
fartos de felicidade, porque entendemos mal o versículo.
Temos visto a igreja procurar felicidade. E não a recrimino.
Todos nós buscamos a felicidade. No entanto, se examinarmos
bem nosso verso, veremos que são felizes (bem-aventurados)
os que têm fome e sede de justiça, porque disso
serão fartos. Ou seja, a felicidade é conseqüência
da fartura de justiça, e não o contrário.
Temos vivido uma igreja que busca a felicidade em forma de bênção;
que busca a cura, de forma legítima; que busca solução
dos problemas; que busca dinheiro para pagar a prestação
do colégio; que busca construir sua casinha; educar seus
filhos; que busca remédio etc., coisas absolutamente legítimas
de se buscar. E quando obtêm essas coisas, imaginam estar
felizes.
Por esse desvio quase
imperceptível, associam essas coisas com felicidade. Quem
tem sua casa, filhos saudáveis, contas pagas, carro na
garagem, harmonia na família, curso superior completo,
um bom emprego, BNH pago etc. é, conseqüentemente,
feliz.
Que engano perigoso!
A esses, o próprio Jesus, no mesmo sermão, diz:
"... porque os gentios é que procuram todas estas
coisas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas
elas; buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça
[grifo meu], e todas estas coisas vos serão acrescentadas."
O apartamento sem justiça
(no sentido da santidade relacional e social); a cura sem justiça;
a bênção sem justiça, não são
coisas legítimas. Preste atenção: a busca
do bem e do prazer, sem justiça, sem santidade, produz
justamente as distorções que encontramos quando
abrimos nossa janela da alma.
Quando eu quero dinheiro,
por exemplo, mas a forma de desejá-lo, de obtê-lo,
de me relacionar com ele não é "justa",
rapidamente me torno escravo dele. E Jesus alertava: Cuidado!
Ele se chama Mamon, e quer ser seu senhor. E você não
poderá servir a Deus e a Mamon ao mesmo tempo. Terá
que escolher. Assim, por esse nome medonho, passam a ser chamadas
todas as formas de felicidade que não se sujeitaram, previamente,
à justiça. O resultado de uma igreja dominada por
Mamon é uma comunidade indiferente aos pobres, indiferente
à idolatria da avareza, indiferente aos efeitos da globalização,
sem misericórdia prática (têm muita misericórdia
nos hinos, nos corinhos, nas orações, nos sermões
etc., mas na prática...), indiferente à injustiça
(no sentido secular do termo). Uma igreja com aparência
de viva, mas moribunda, aos olhos do Altíssimo.
Conclusão
Quando o cidadão
do reino olha para si mesmo, lá na solidão do porão
da alma, e descobre que é pobre; quando ele chora por
causa disso, e então assume a atitude mansa e simples,
então, surge nele, como que num convalescente de uma cirurgia
bem-sucedida, uma fome imensa. Essa fome é de ser justo
e santo como seu Pai.
A sociedade constituída
por pessoas assim, por essa nova humanidade, é, também,
uma sociedade justa, no sentido social do termo. É uma
sociedade justa, no sentido dos justificados por Deus, mas é,
sobretudo, uma sociedade de pessoas justas e santas diante de
Deus. Nesse momento, a opressão desaparece. É por
esse mecanismo verdadeiro que, quando o evangelho atinge uma
pessoa, essa pessoa passa a ter consciência social; ele
o faz olhar para o pobre; o faz misericordioso, o faz engajar-se
em movimentos e causas sociais, o faz envolver-se em filantropias;
o faz esquecer-se de si mesmo e das suas coisas e interesses.
Esse evangelho o faz abrir o seu bolso e dar, num gesto que diz
que já não serve a esse senhor, o dinheiro.
O engano que o diabo
produz é sempre uma imitação barata mas
bem feita do original. Temos visto pessoas, organismos, entidades,
lutando pela justiça social. Mas constatamos em muitos
casos — e dizemos isso com temor — que as pessoas
envolvidas nessa guerra não têm fome e sede de justiça,
porque manifestam em sua vida pessoal absoluta falta de humildade,
de sinais de choro, de mansidão, de simplicidade. Ao contrário,
se apresentam como guerreiros arrogantes e impiedosos contra
seus inimigos. E se valem de salmos de Davi, para apoiar tais
atitudes. Em vez de traspassar a si mesmos, buscam traspassar
os que se metem em seus caminhos.
Não, não
é assim. No reino de Deus se faz a coisa certa com o motivo
certo, com o coração contrito.
A fé sem obras
é morta, já nos dizia Tiago. Não há
como manifestar a fome e sede de justiça senão
por uma luta por justiça social, por uma melhor distribuição
de renda, de oportunidades, da solidariedade. Mas é bem
verdade, também, que essas coisas todas podem acontecer
sem fome e sem sede. "Examine-se, pois, o homem a si mesmo..."
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