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Política e Igreja:
Ester e Mordecai


Em plena campanha para Assembléia Nacional Constituinte, após um discurso cheio de propostas e soluções, ele é interpelado por um repórter de televisão:

— Deputado, como fica o problema da habitação no Brasil, se o senhor for eleito constituinte?

Nosso candidato parou, pensou, coçou a cabeça, pigarreou e, num lampejo, disparou, em tom sacerdotal:

— Na casa de meu pai há muitas moradas; se assim não fôra, eu vô-lo teria dito.

A cena foi divulgada em rede nacional de televisão, em tom irônico e desdenhoso, como um exemplo da alienação evangélica. Num grande segmento dessa igreja, no entanto, nosso herói foi elogiado, devido à sua coragem de utilizar-se da oportunidade para dar um "testemunho cristão".

— A Palavra de Deus — disseram —, bem ou mal, foi ouvida no Brasil todo, e, quem sabe, até no exterior... e não há de voltar vazia.

A igreja evangélica Brasileira, depois de mais de 80 anos de verticalismo intimista — onde termos tais como "ação social" e "política" foram banidos, por serem identificados com mundanismo e secularização — começa a redescobrir sua responsbilidade social. Compreende que a encarnação do Verbo anuncia que o mundo (tempo, espaço e matéria) é espaço legítimo para a prática da verdadeira espiritualidade. A vida e a obra de Cristo tornam-se, então, modelos para a Igreja, que começa a abrir-se para o mundo, entendido agora como palco de atividade redentora. Como importante campo missionário, surgem os centros de decisão, onde os destinos da nação são traçados. Estamos redescobrindo as lições de Ester e Mordecai na corte do rei Assuero.

É apenas o começo, no entanto. Embora sejamos, hoje, quase 20% da população do país — em torno de 20 milhões de evangélicos —, elegemos para a Assembléia Nacional Constituinte apenas 34 dos 559 deputados. Menos de 10%. Passados dez anos, o número decaiu. Hoje, na Câmara Federal, não chegamos a 25. A igreja pulverizou seu voto em torno de centenas de candidatos, e acabou deixando de eleger a muitos.

De fato, esse despertar não é fácil em muitos aspectos: temos ainda muita dúvida, muita ingenuidade, muita desunião, muita imaturidade. Ainda não falamos desses assuntos em nossas escolas dominicais. O resultado pode vir de um exemplo real: uma igreja obrigou seu deputado (e pastor) a propor que se proibissem as aulas de educação física nas escolas secundárias, pelo fato de que as moças teriam que usar calças curtas ou "trainnings" justos e isso seria sexualmente provocante. O deputado, pressionado, apresentou a emenda e foi alvo de chacota nacional.

Na realidade, quando Ester foi eleita pela mão de Deus para atuar na corte do rei Assuero em favor de seu povo, tinha boas condições para desempenhar seu papel: havia sido instruída e educada por um Mordecai consciente e maduro (Et. 2:7,10 e 20b), que não a abandonou depois de eleita; antes, acompanhou-a de perto (Et.2:11). Não bastam as "esteres" nas cortes do Brasil; é necessário muito mais: é necessário que sejam preparadas e acompanhadas por "mordecais" conscientes, informados e comprometidos com o país e com o Senhor da Igreja.

Nesse sentido, começam a surgir no país muitas pessoas e associações preocupadas com a conscientização, informação e mobilização da comunidade evangélica. Muitos crentes piedosos e profissionalmente bem capacitados têm percebido o chamado para atuar nos centros de poder (assembléias legislativas, prefeituras, diretorias de estatais, condomínios, ministérios, multinacionais, partidos políticos, sindicatos e tantos outros). São as "hadassas" do nosso tempo. Outros se têm integrado em grupos de pesquisa ou de ação política, espalhados pelo país, buscando dar apoio às igrejas e aos políticos evangélicos, através de encontros de políticos e pastores, palestras e debates, publicações, pesquisas de opinião, etc. São os "mordecais".

Há muito ainda por fazer. Nossa missão mais urgente, no momento, é cooperar com o amadurecimento da Igreja para que tenha condições de enviar missionários bem preparados aos centros de decisão e poder. Não é mais hora de "autopropulsionados".

Muitas vezes esquecemos que um bom missionário no Senado, por exemplo, pode fazer, por um índio Yanomami, o que dez, lá na tribo, não conseguem . Com uma simples penada, sua vida ou morte podem estar decretadas.