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A quebra de sigilo
no painel não foi detectada antes de as denúncias
estourarem?
Na verdade, foi, mas
não pelo Conselho de Supervisão. Há depoimentos
à Comissão de Inquérito dando conta de que,
às vésperas da votação que cassou
o mandato do senador Luís Estevão, Antonio Carlos
Magalhães já estaria a intimidar colegas, dizendo
que teria como saber seu voto. Ele nega veementemente [até
o fechamento desta entrevista]. Isso teria chegado aos ouvidos
de Nilson Rebelo, então chefe de gabinete de Luís
Estevão, que alertou seu chefe. Por isso, Estevão
solicitou ao presidente da Casa, Jader Barbalho, que se fizesse
a votação pelo método tradicional das cédulas
de papel, o que acabou não acontecendo. Há ainda
a denúncia do jornalista Ricardo Boechat, em sua coluna
no jornal O Globo de 9 de agosto de 2000, dizendo que, por um
defeito no programa do painel de votação, os votos
teriam ficado expostos. Não conseguimos saber como ele
obteve essa informação.
Não há
nenhuma suspeita?
Possivelmente, foi o
próprio Nilson Rebelo. Boechat protegeu sua fonte. Mas
ele sabia. Delis Ortiz [repórter de política da
Rede Globo], membro de minha igreja, também sabia, mas
também protegeu suas fontes, o que deixou nossa Comissão
de Inquérito sem condições de explorar esses
caminhos. Tivemos que fazer a investigação da estaca
zero, pelo lado tecnológico [Uma equipe de peritos da
Universidade de Campinas, a Unicamp, vistoriou o sistema e identificou
a fraude, em março].
O senhor conhecia
os funcionários do Prodasen envolvidos no caso do painel?
Considero-me, ainda
hoje, amigo da doutora Regina Borges, e colega de Ivar Ferreira
e Hermilo da Nóbrega. Quanto ao Heitor Ledur, pelo fato
de ele ficar isolado na salinha que controla o painel, meus contatos
foram menos freqüentes. Fui diretor de Informática
do Prodasen, de 1991 a 1994, quando Regina era a diretora-executiva
do órgão.
Como era o comportamento
da ex-diretora e dos funcionários envolvidos antes da
eclosão do escândalo? Já haviam se envolvido
em alguma irregularidade administrativa?
Aí é que
está o mistério e o meu susto: sempre foram funcionários
corretos e exemplares há coisa de 20 anos, acostumados
às pressões e aos segredos das CPIs e dos Orçamentos
da União. Espero, passado todo esse episódio, ainda
poder sentar com eles, para entender o que aconteceu. Imagino
que tenham motivos íntimos que precisam de ouvidos, digamos,
amigos.
Na sua opinião,
de quem partiu a idéia de violar o sigilo do painel?
Imagino que, quando
esta entrevista for publicada, já não será
relevante minha opinião, pois saberemos da verdade dos
fatos. No momento, para não errar, coloco essa origem
nos senadores Antonio Carlos Magalhães [PFL-BA] e José
Roberto Arruda [sem partido-DF], nesta ordem. Os dois teriam
seus motivos e não dá para saber, sem ouvi-los,
de quem partiu a idéia. Hoje, ACM jura que dele não
partiu nem ordem nem pedido, e que foi surpreendido por Arruda,
quando este lhe mostrou a lista. Arruda diz que não houve
uma ordem, mas que agiu em nome do presidente do Senado. ACM
não é convincente quando interrogado sobre o telefonema
de tranqülização que deu a Regina, naquela
mesma hora; nem consegue explicar porque não se enfureceu,
como é do seu estilo, quando soube que Arruda havia usado
seu nome para levar Regina a cometer falta tão grave.
Tampouco denunciou o fato imediatamente.
Qual a sua impressão
sobre os senadores ACM e Arruda?
Como funcionário
do Senado, essa pergunta me deixa de saia justa. O que posso
dizer é que o envolvimento do senador Arruda no episódio
me causou uma grande surpresa.
O governo teria interesses
na violação?
Certamente. Mas havia
um problema: no interior, o voto comprado era comprovado por
uma marquinha na cédula, ou uma perninha maior no "X",
ou uma caneta cor-de-rosa etc. Agora, como fazer, na hora de
pagar as dívidas dos acordos, quando o voto é secreto?
Precisamos de uma lista. Mas não dá para saber
se esse interesse chegaria ao ponto de o presidente da República
dar um sinal verde, ou encomendar o serviço. Esse lado
da questão acabará sendo explorado pela imprensa
e, naturalmente, negado.
Na sua opinião,
o comportamento do governo, sempre contrário a investigações
que possam atingi-lo, representa admissão de responsabilidade
em casos suspeitos como o da possível compra de votos
para a reeleição, o envolvimento do ex-secretário
da presidência Eduardo Jorge com o escândalo do TRT/SP
ou o dos eventuais favorecimentos nas privatizações?
A questão tem,
pelo menos, dois lados. Essa relutância em apurar os erros
à sua volta dá ao presidente esta nódoa
de que está com medo do que pode ser encontrado. Isso
é bem exemplificado no caso do ex-ministro Eduardo Jorge.
Por outro lado, ninguém desconhece que a indústria
da denúncia é um artifício de setores da
oposição para imobilizar o governo e ganhar espaço
na mídia. Se FHC resolve apurar todas as denúncias,
ele não faz mais nada, e acaba sendo acusado, pela própria
oposição, de imobilismo; se não apura, é
porque está com medo. A decisão depende, então,
de discernimento político sobre a relação
custo/benefício: o que é pior, atrasar a programação
por esta ou aquela apuração, ou o preço
político de parecer ter culpa no cartório? Na minha
opinião, o balanço final é de que ele tem,
sim, culpa no cartório.
O senhor acha que
a criação da Ouvidoria da União, resposta
do Planalto à acusação de que as denúncias
não são apuradas, terá algum efeito prático
no combate à corrupção?
Eu não quero
colocar em dúvida o caráter e seriedade da nova
ministra [Anayde Rodrigues], mas desconfio muito quando a raposa
avoca a si a nobre tarefa de cuidar do galinheiro. Ainda mais
quando nem esfriou o tranco que ela levou com aquela tentativa
de cercear a ação dos procuradores da República,
que queriam chegar a Eduardo Jorge. Lembra da famigerada Lei
da Mordaça?
O senhor acredita
que o desenrolar dos acontecimentos pode influir decisivamente
nas próximas eleições gerais?
Acho que sim, embora
ainda esteja um pouco distante, do ponto de vista do alcance
da memória do eleitor brasileiro. Mas ainda virão
mais reveses. Por exemplo, a recente condenação
do presidente, declarado "omisso", pelo Supremo Tribunal
Federal, quanto ao reajuste dos salários dos funcionários
públicos [que estão sem aumento desde o início
do primeiro mandato de FHC, em janeiro de 1995]. Essa, eu gostei.
Ele achava que seu "nhem-nhem-nhem" justificaria o
arrocho a que nos tem submetido. Mas meu maior temor é
que esses episódios criem um estado de repugnância
acrítica com políticos e com a política
em geral. Um irmão, exasperado, chegou a me dizer: "Não
tem um brasileiro que se disponha a encher um ultra-leve de bombas
e se jogar sobre o Palácio do Planalto?!" Isso eu
acho perigoso, pois é a saída pelos fundos, sem
falar na alternativa, ainda que não mencionada, de intervenção
militar. Temos, sim, que depurar nosso sistema eleitoral e nosso
voto. E, para isso, precisamos de candidatos que não pertençam
a essas dinastias h* séculos empoleiradas no poder. Que
tal cristãos sérios e comprometidos com suas igrejas?
Que tal o financiamento público das campanhas? Que tal
o voto distrital? Sei lá...
Na sua avaliação,
o senador Jader Barbalho, atual presidente do Senado e do Congresso,
tem condições éticas de exercer a chefia
do Legislativo, mesmo que as denúncias contra ele não
fiquem provadas, mas somente pelo excesso de suspeitas que seu
nome desperta?
Pois é. O problema,
a meu ver, é que, por vivermos — pelo menos, tentarmos
viver — em um estado de direito, não se pode cassar
o mandato de uma autoridade por conta de denúncias não
comprovadas e sem o direito sagrado a ampla defesa. Para o cidadão,
isso é terrível, talvez incompreensível,
eu sei. Para muita gente, ele é corrupto e pronto. Mas
cabe a todos zelar por garantias constitucionais, tais como a
presunção de inocência até prova em
contrário. Sem esse zelo, que já é atropelado
demais em nosso país, entramos num lusco-fusco legal,
numa barbárie institucional, onde, rapidinho, a imprensa
se torna tribunal de última instância.
A impressão
generalizada, no país, é de que o Congresso Nacional
é o paraíso das maracutaias. Esta impressão
corresponde à realidade?
Cá estou eu de
saia justa de novo. Mas essa impressão, infelizmente,
corresponde, em muito, à realidade. Mas preciso dizer,
com tristeza, que conheço senadores de vida mais correta
que muitos presbíteros, e até pastores, com os
quais já convivi no seio da Igreja Evangélica brasileira.
Está de bom tamanho?
Está. Mas
o que fazer, então, para devolver a credibilidade ao Congresso
Nacional?
Fazer o que FHC diz
que faz: ser absolutamente intransigente com a corrupção,
com o corporativismo e com os ranços patrimonialistas
que ainda existem na política brasileira. Agora, isso
é um processo histórico, não se resolve
de um dia para outro, pois exige também uma renovação
da cabeça do eleitor. Da parte da igreja, há que
responder à pergunta: "A quem enviarei? E quem há
de ir por nós?"
Como especialista
em comunicação, como o senhor avalia a atuação
da imprensa na cobertura política?
A imprensa se tornou
uma espécie de guardiã da moralidade e da transparência
das ações governamentais. Sua presença está,
cada vez mais, tornando a corrupção uma tarefa
difícil e arriscada. Mais que isso, a mídia assumiu,
de certa forma, o papel de memória nacional, para não
deixar o povo esquecer de quem fez o quê. Por outro lado,
esse poder também corrompe. Há uma certa irresponsabilidade
da imprensa, em relação à verdade dos fatos.
O pensamento é: "Se não dá ibope, a
gente faz uma maquiagem, para a coisa ficar mais interessante."
Só que essa maquiagem pode ser sobre a honra de uma pessoa
ou de uma instituição. Sob a falácia da
liberdade irrestrita de expressão, muito crime é
cometido. Sem um controle dessa liberdade distorcida, a imprensa,
que já se transformou no Quarto Poder, acaba por se sobrepor
às instituições formais, transformando-se
em tribunal, com rito sumaríssimo e inapelável.
Há, no Congresso,
52 deputados e quatro senadores que se confessam evangélicos.
Eles se empenham no combate à corrupção?
Parece-me que esses
senhores estão em melhor situação do que
a famosa "bancada evangélica" do tempo da Constituinte
de 1988. Amadurecemos. Fazemos menos besteira — ou besteiras
menos visíveis. No entanto, ainda somos muito inexperientes,
e eu me incluo nessa avaliação. Até para
definir e entender, no dia-a-dia, o que seja corrupção.
E se você começa a falar, em uma classe de Escola
Dominical, sobre a necessidade de o cristão se envolver
e ocupar espaços estratégicos nos condomínios,
nas prefeituras, nas associações de pais e mestres,
nas associações de classe, nas grandes empresas
etc, logo um irmão "espiritual" lhe advertirá
que você está se desviando da Palavra.
Nos últimos
20 anos, o envolvimento da Igreja com a política tem aumentado,
e já é expressivo o número de parlamentares
e membros do executivo crentes. O senhor acha que a banalização
da corrupção, em todas as esferas do poder, pode
provocar revisionismo e o retorno à postura anterior?
Não creio que
haja um retorno total. Já não podemos ser como
antes, por tudo o que temos aprendido, a duras penas. Mas concordo
que muita gente honesta prefere uma cômoda equidistância.
Essa alienação tem retardado em muito a formação
de uma igreja madura. Outro fenômeno é que os evangélicos,
com o advento da igreja eletrônica, tornaram-se importante
curral eleitoral. Somos mais de 20 milhões de eleitores.
Tentação para político-missionário
autopropulsionado nenhum botar defeito.
Na época do
regime militar, alguns setores evangélicos atuaram a favor
da repressão, particularmente, os presbiterianos, conforme
o falecido pastor Jaime Wright, estudioso do tema. Na sua opinião,
por que isto ocorreu — houve favorecimentos ou simplesmente
temia-se retaliações por parte dos mandatários
do poder?
Acho que as duas coisas
e muitas outras. Menciono a sede pelo poder que, inclusive, gerou
uma interpretação estranha de Romanos 13. O analfabetismo
político cresceu mais rapidamente entre os evangélicos
do que no resto da sociedade. Em seguida, tornamo-nos a "Geração
AI-5", que não queria problemas. No meio dessa alienação
crescente, surgiu o medo dos comunistas, que comiam criancinhas,
e começamos a entregá-los. Mesmo sem saber direito
como era um comunista. Só sabíamos que devia ser
uma pessoa horrível.
Por que o segmento
evangélico histórico/tradicional tem perdido tanto
espaço para o pentecostal/neopentecostal, apesar de ser
muito mais consistente teologicamente?
Entendo que esse é
um fenômeno global e moderno. A modernidade impõe
uma lógica de mercado às consciências e às
relações, o que explica, pelo menos em parte, o
fenômeno. Alguns efeitos dessa neo-liberalização
da fé seriam, por exemplo: a necessidade de experimentar
o novo, de mudar; o enfraquecimento dos laços familiares
e eclesiásticos — antes, tínhamos o tecido
social de um lenço de seda; agora é um lenço
de papel, que não resiste a um puxão. Há
ainda, a busca por entretenimento espiritual, do tipo halloween
evangélico, cuja máxima é: "gostosuras
ou travessuras". É como dizer ao pastor: "Ou
você me dá o que eu quero, ou você me presta
serviços espirituais com qualidade ISO 9002, ou eu mudo
de provedor, digo, de pastor." Outro elemento é o
apelo da mídia ao que é fantástico ou espantoso,
fortemente explorado pelas novas igrejas; e o charme inicial
do anonimato. Um irmão de minha igreja, certa vez, me
disse: "Chega! Vou mudar para uma igreja grande, onde serei
visitante por dois anos." Contudo, essa atitude esconde
uma armadilha de solidão e orfandade. Exploro esse tema
no meu livro Icabode.
Qual sua opinião
sobre a confissão positiva, ou teologia da prosperidade?
Acredito que têm
muito de bíblico, pois vejo na Bíblia, em diversos
lugares, a idéia de que nosso Pai quer nos abençoar
e nos dar boas coisas. Mesmo que lhe peçamos pedra, ele
nos responde com pão. Acho isso bonito. Mas também
acho que há uma fraude velada na forma como essas verdades
são exploradas e sutilmente distorcidas por muitos pastores.
Se examinarmos a vida do nosso Mestre, cujos passos seguimos,
não vamos encontrar nela essa teologia. Ao contrário,
nosso Senhor se empenhava em ensinar seus discípulos sobre
a necessidade de caminhar em direção à cruz.
Ele nos ensinou a carregar nossa cruz, nos disse que seríamos
perseguidos como ele e que deveríamos desconfiar dos caminhos
largos e espaçosos. De repente, o que deu nos evangélicos?
Que bicho os mordeu? Tenho orado por esses mestres, já
que Jesus lhes prometeu uma pedra de moinho atada ao pescoço
a afundá-los no lago, com soturnas referências ao
julgamento de Sodoma e Gomorra.
O senhor acha que
os evangélicos usam corretamente os meios de comunicação?
Acho que estamos começando
a aprender a usar essa linguagem. Ainda há muito programa
que simplesmente leva ao ar um culto ou reunião gravado
por uma câmera. Mas registrar uma aula ou uma reunião
não faz justiça ao potencial do veículo.
A inserção de imagens explicativas, o uso de mais
câmaras, o cuidado com o tempo, iluminação,
som; a linguagem verbal e corporal e tantos outros aspectos ainda
têm que ser amadurecidos. Por outro lado, tenho dúvidas
se a corrida evangélica por espaços, canais, concessões
até de TV comunitária, está apoiada em estratégias
sérias de divulgação da fé. E aí
é que mora o perigo: toda visibilidade tem dois lados
— pode mostrar o que é bom ou tornar o rei nu.
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