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Uma das características
dos tempos em que vivemos é a pluralidade. Este fenômeno
se caracteriza pela imensa oferta de opções ao
homem moderno. Opções a respeito de tudo. Ele pode
escolher desde a cor da gravata até o sexo do bebê,
passando pela quantidade de estrelas do seu macarrão ou
índice de cafeína no seu "capuccino".
Pode escolher entre centenas de marcas do sabonete (inclusive,
adotar o estilo rústico de não-sabonete), orientações
pedagógicas para seu filho, ideologia da sua revista semanal,
o programa da noite, o sabor do chiclete (deste o tradicional
tutti-frutti, até sabor picanha); pode escolher morar
no campo ou na cidade, o presidente operário, caçador
de marajás ou intelectual; viajar de jegue, de navio,
ou de submarino; pode escolher entre diversos estilos de vida
(tradicional-obtuso, tradicional-esclarecido, moderno, "prafrentex",
revoltado, hippie, culto de esquerda, culto de direita, descuidado-charmoso,
artístico-desligado etc.), ou mesmo seu próprio
sexo, independentemente daquele de seu nascimento (esta escolha
é chamada de "opção sexual").
A pluralidade se instala
no homem moderno como uma inconsciente necessidade — ou
compulsão, mesmo — de optar, alimentada pela mídia,
e sustentada pela sociedade de mercado. Ao mercado interessa
que o indivíduo esteja sempre pronto a experimentar algo
novo, a mudar, a optar. Ele tem que viver em eterno estado de
supermercado. A vida à sua frente tem que ser composta
de prateleiras abarrotadas. E ele acha isso delicioso.
Este nosso cidadão
também faz opções religiosas. Para isso
também há prateleiras cheias de ofertas. Tem cristianismo
tradicional (em bom estado), usado, avivado, renovado, recondicionado
(mas com garantia de bênçãos); tem esoterismos
(com poções ou sem poções mágicas);
tem bruxas de meter medo (e bruxos simpáticos, também);
tem até peças avulsas para seu "kit"
religioso personalizado.
Ninguém escapa
da força da pluralidade. Assim, quando acorda no domingo,
o crente se predispõe a optar: — O que temos hoje,
na prateleira? — lhe vem, inconscientemente ao espírito.
E ele se dá conta que pode escolher como será sua
manhã eclesiástica por diversos critérios
à sua disposição: a igreja (templo, tenda,
cinema, ar-livre, chácara etc.), o pastor (tradicional,
falante, carismático, pedagógico, paternal etc.),
a aula de Escola Dominical (em classes, sem classe, com ou sem
professor, com auxílio audiovisual, flanelógrafo,
revista etc.), o coral (ou conjunto de rock), os irmãos
(fraternos ou arredios, distantes ou bisbilhoteiros etc.), o
tipo de liturgia (dançante ou imóvel, "quente"
ou "frio", com ou sem direito a arrepios, com corinhos
ou com hinário, para assistir ou participar etc.).
Estabelece-se, assim,
inevitavelmente, o mercado eclesiástico: o pastor acorda
no domingo imaginando o que poderá oferecer de atraente
aos seus "consumidores". Se ele não for criativo,
começa a perder a concorrência. Se isso acontece,
sua igreja perde em animação, perde em movimento;
ele próprio perde prestígio no Conselho de Ministros
da cidade (medido por número de membros ativos) e até
na sua capacidade de influir na política local. Perde,
inclusive, em dízimos e ofertas. Tudo fica comprometido.
Desde os projetos missionários, até seu próprio
sustento.
Este pastor precisa,
portanto, estar constantemente atualizado sobre as novas tendências
litúrgicas, para poder oferecer aos seus membros o que
há de mais moderno e atraente. Ele precisa manter-se "na
crista da onda". Se a "onda" é tremer,
vamos tremer; se é roncar, que sejamos os primeiros; se
é cair para trás, nosso povo já cai há
muito tempo. Ah, o quente é redescobrir as formas litúrgicas
medievais? Ora, já estamos até construindo uma
catedral gótica, cheia de vitrais...
O leitor perdoe se o
tom desta conversa vai ficando um pouco irônico. É
que ele ajuda a ressaltar a parte ridícula de toda essa
situação, no breve espaço de que dispomos.
Não se trata de ser destrutivamente contra tudo o que
é novo, mas de mostrar o perigo potencial embutido na
situação. Na realidade, não me parece um
mal em si o pastor se esmerar em oferecer uma liturgia dinâmica,
atraente, viva e exuberante aos seus irmãos. O problema
aparece, a meu ver, quando a lógica do mercado, acima
esboçada, inverte a polaridade das relações
no culto. Explico isto, com a metáfora da ópera.
Imagine um culto a Deus
como uma sessão de ópera. Talvez esta seja a forma
de expressão cultural mais evoluída e completa
já alcançada por nossa civilização.
Naquele momento mágico, há ambientação,
há enredo; há drama, dança, música
solada e sinfônica, há harmonia (entre músicos
e atores-cantores), polifonia, sincronismo etc. e um público,
que fornece o ambiente. Da conjugação destes e
tantos outros fatores, resulta uma celebração completa,
arrebatadora e bela. Nesse ambiente, todos celebram, de forma
intensa, uma porção de seu patrimônio cultural.
Pois bem. Se um culto
é semelhante a uma ópera, então temos um
grande filão a explorar nesta metáfora. Por exemplo,
o que podemos considerar como "harmonia" do culto (além
daquela estritamente musical)? Quem são os apresentadores,
no culto? Quem é o dirigente? Como se monta o enredo (o
tema da peça)? Será ele uma comédia (no
sentido de alegria) ou um drama? Quem decide? Quem participa?
De tantas perguntas,
interessa-nos, aqui, uma, em especial: quem é a platéia?
Na ópera, há um público que paga o bilhete.
E no culto? Na ópera, esse público aplaude ou vaia,
determinando a prosperidade ou o fechamento antecipado da temporada.
E no culto?
Aí é que
está. No culto, tanto o dirigente quanto a platéia
são o próprio Deus. Todos os demais são
apresentadores, atores, músicos, etc. Todos têm
a responsabilidade de apresentar algo de belo a Deus. E este
é o único que pode aplaudir ou vaiar. Os demais
são parte do sucesso ou do fracasso.
À ovelha e ao
pastor, cabe, no domingo pela manhã, perguntar-se: que
opções tenho hoje? E escolher entre adorar ou não.
"E todas as demais coisas vos serão acrescentadas..."
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