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Pais e Filhos
A Parede Derrubada


Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um; e, tendo derrubado a parede da separação que estava no meio, a inimizade, aboliu na sua carne a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse em si mesmo um novo homem, fazendo a paz... Efésios 2: 14, 15.

 

Linha de Comando

Há algum tempo, ouvi um pastor pregando sobre o tema "Linha de Comando". Ele ensinava que há uma forte hierarquia de poder nas regiões celestiais, e que essa ordem acaba por desembocar na família, que é o último elo dessa corrente. Por isso — ensinou ele — é preciso treinar o garoto, desde pequeno, a obedecer cegamente aos pais, para que não se torne, por falta de treino, insubmisso ao Senhor, quando adulto.

Para exemplificar, ele mostrou como fazia em casa:

— Quando meu filho era pequeno, e levantava o nariz e perguntava: "por quê?" eu respondia: "porque eu sou mais forte". Agora, ele já está crescido — e mandava o rapaz se levantar, para mostrar seus um metro e noventa —, por isso, quando ele me pergunta: "por quê?" eu lhe digo: "porque sou eu quem põe a comida na mesa".

Eu passei muito tempo meditando nesse sermão. Muito mesmo. De vez em quando, o assunto vinha à minha cabeça: será que é assim que deve ser? Será que é assim que a Bíblia quer que eu ensine meu filho?

Imagem e Semelhança

Por um lado, essa firmeza toda pode ajudar a criança e o rapaz a sentir firmeza na liderança familiar e, por conseguinte, passar a sentir firmeza na liderança de Deus. É que acabamos, inevitavelmente, transportando para Deus os conceitos de paternidade que aprendemos. E se Deus é assim, todo pai cristão tem a obrigação de tentar ser parecido. Mas será que Deus, no meu lugar, agiria assim, com seu filho?

Se formos examinar as Escrituras, verificaremos que a obediência é um dos valores máximos, aos olhos de Deus. Paulo, quando nos quer apresentar um exemplo de espiritualidade profunda, diz:

Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz. Fil. 2: 5-8.

Por outro lado, não vemos muito Deus, ou Jesus, ameaçando com raios e trovões, caso seus filhos desobedeçam. Ao contrário, o que mais vemos é um Pai que se sacrifica, mesmo quando seu filho o afronta e humilha. Não é o caso dos filhos pródigos de Lucas 15? Tanto o mais novo quanto o mais velho desobedecem o pai, e não são imediatamente punidos. Ao contrário, o pai procura conciliá-los.

Mas por outro lado ainda, encontramos o Senhor dizendo, em Hebreus 12: 6, que ele corrige o filho que ama. E agora? Como fazemos? Como fazer para reproduzir nas nossas relações pais-filhos as relações Deus-igreja?

Falsas Concepções

Certa vez um rapaz me convidou para pregar em seu casamento. Na conversa, ele encomendou o texto sobre o qual gostaria que eu falasse: Efésios 5: 22-33. "As mulheres sejam submissas aos seus próprios maridos como ao Senhor..." Ele queria, desde a cerimônia de núpcias, "enquadrá-la" no que entendia ser seu papel. Eu prometi falar sobre o texto, e no dia, simplesmente fiz uma exposição do mesmo, mostrando o seu ensinamento sobre o papel da mulher e do homem.

Esse papel está claro: a mulher deve agir como a igreja, e o marido como Jesus. Ela coloca-se sob a missão (submissão) e ele se entrega por ela, até à morte: "como Cristo a si mesmo se entregou por ela".

O jovem ficou desapontado: achou que eu iria ensinar sua noiva a obedecê-lo cegamente, porque era o Cabeça; e que ele teria direito de puni-la, se desobedecesse.

É essa a idéia que muita gente faz da relação entre Deus e seus filhos; entre o Noivo, Jesus, e sua noiva, a Igreja. Mas o texto ensina coisa diferente: ensina que Jesus se entregou por ela, sofreu por ela, foi paciente, benigno, e até hoje diz: "eis que estou à porta e bato".

Já notou que esse texto de Efésios contém 7 vezes a palavra "como"? Está nos dizendo que devemos nos relacionar como Cristo e a Igreja.

Resumindo tudo o que pensamos até aqui, vemos que, como filho, Jesus se humilhou e foi obediente, conforme Filipenses 2. Já na figura de Noivo, ele aparece numa posição de amor bondoso, paciente e até mesmo sacrificial. Na posição do Pai do filho pródigo, Deus aparece como um pai amoroso e disposto até à humilhação.

Derrubando o Muro

O que aprendemos disso tudo? Na minha forma de entender, precisamos examinar duas posições, que precisam se harmonizar, para que o Reino se reproduza nas nossas relações. Essas posições são a do filho e a do Pai. Deus, como filho, se submete ao Pai até, se preciso, à morte (má notícia: foi preciso). Esse mesmo Deus, como Pai, se submete ao filho, até à morte (a figura do Noivo e da noiva, como Deus e igreja). O Deus que morreu por seus filhos, quando ainda rebeldes. E o que é mais intrigante ainda: um gesto não dependeu do outro. Deus prova seu amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós quando ainda delinqüentes. E o filho se submete ao Pai, ainda que este lhe volte as costas (Eli, Eli, lamá sabactâni).

Mistério? Sim, meu jovem, o mistério do amor divino. Um amor que rompe barreiras e derruba paredes de separação. Era esse amor que Jesus nos trazia, como exemplo vivo. Um amor que não precisa de força bruta para manter a coesão familiar. Por que autoridade e submissão, no Reino, se dão voluntariamente: o voluntariado do amor.

Quando Jesus entra num lar, as relações entre pais e filhos mudam muito, pois eles passam a tentar reproduzir o Reino dentro de casa. E a primeira coisa que devem buscar, é reproduzir a "cadeia de comando". Mas não da forma como aquele pastor estava ensinando. Na base do amor sacrificial, de ambas as partes.

— Mas assim, se alguém resolver romper o trato, a coisa vai virar bagunça — me disse um pai, um dia.

— É verdade, respondi. Mas se não for assim, como você saberá que tem um filho, e não um servo, como o irmão mais velho do filho pródigo? Se sua fidelidade não é por amor, que valor tem? Se você é honesto por medo, que honestidade é essa? Se você usa cinto de castidade, mas sonha com o dia em que ele será tirado, você pode se considerar virgem?

— Mas e a disciplina, sobre a qual falou? Acabou a disciplina? Vai tudo para o lixo? — me pergunta o pai angustiado.

Uma vez meu filho, que quer ser jogador de basquete, com, no mínimo 2 metros de altura, aos 13 anos, subiu num sofá, colocou a mão na cintura e perguntou: pai, quando eu ficar desta altura, como é que você vai fazer para eu lhe obedecer?

E eu me lembrei daquele sermão do pastor. Pensei em responder algo duro e vigoroso, tipo: "eu é que ponho a comida na mesa". Mas já havia pensado muito tempo no assunto, e respondi:

— Meu filho, enquanto nossas relações forem tão vitais para você quanto são para mim; enquanto você precisar de mim, tanto quanto eu preciso de você; enquanto a gente sofrer quando está longe um do outro, enquanto a gente sentir saudade; enquanto a gente se amar como ama hoje, eu lhe direi: "vai!" e você irá; "fica!" e você ficará. Porque você me ama. Mas se algum dia uma parede de separação se levantar entre nós, seja da indiferença, seja da incompreensão, seja até do ódio, então nem eu lhe direi nada, nem você precisará obedecer, porque não fará mais a menor diferença. Meu filho, você me obedece porque você me ama. E eu procuro lhe servir, como pai, seja dando o que você precisa, seja disciplinando-o, porque eu o amo. O que passa disso, não é do Reino.