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Ensina
a criança no caminho em que deve andar, e ainda quando
for velho não se desviará dele. Pv. 22:6
Uma das ciências
que mais tem evoluído nos últimos tempos é
a Comunicação Social. Está em alta nos vestibulares,
nos cursos de Recursos Humanos das empresas, nas grandes multinacionais
e até nas campanhas políticas, cuidando da imagem
de partidos e candidatos. Parece que as pessoas, sob a influência
da poderosa mídia, descobriram a importância de
se comunicar bem (ou o desastre de uma comunicação
cheia de ruídos). Com isso, até os programas de
aprimoramento institucional ou pessoal - de cursos de liderança
a encontros de casais - têm que ter, obrigatoriamente,
um capítulo sobre comunicação.
As teorias da comunicação
remontam a Sócrates, para quem, um bom discurso tinha
o objetivo de persuadir. Ou seja, mudar a forma de pensar do
meu ouvinte, na direção do meu pensamento. Desde
então, até os dias de hoje, essa concepção
da Comunicação tem ocupado um importante espaço
entre teóricos e práticos. O professor é
um bom comunicador se é capaz de "enfiar" sua
matéria na cabeça do aluno (de preferência,
sem que este tenha muito trabalho de estudar); o pregador é
avaliado por seu poder de convencimento, de transformação
dos seus ouvintes; o político atilado é aquele
que se faz compreender facilmente (mesmo que ele próprio
não saiba bem o que está dizendo, não importa),
e assim por diante.
Mas essas teorias evoluíram.
Principalmente, quando se começou a descobrir que nem
sempre a persuasão modificava o comportamento das pessoas;
que a boa comunicação do professor nem sempre fazia
o aluno conhecer mais, e que sermões inflamados nem sempre
produziam a vida desejada nos ouvintes. Na verdade, foi ficando
claro que esse modelo implicava uma certa dose de prepotência
e arrogância, pois avaliava o resultado dos processos comunicativos
a partir da ótica do comunicador. O aluno aprendeu, se
for capaz de reproduzir o que o professor ensinou - e se ele
pensar diferente? Pode pensar? O fiel foi impactado pelo sermão,
se modificou seu comportamento na direção prevista
pelo pregador - e o espaço para ter sido abençoado
em outra direção?
A idéia de que
"comunicar é transferir informação",
até geograficamente, começa a ser revisada. O conceito
da via de mão única começa a ser repensado.
E o termo assume a idéia de "comum-nicar", ou
seja, estabelecer coisas em comum. A novidade é que, a
partir dessa compreensão, o processo passa a igualar o
comunicador como parte, e não senhor, desse processo.
Colocar em comum é tarefa para os dois pólos teóricos
do processo. Os dois se transformam em comunicadores-receptores;
os dois têm uma dignidade própria de sujeitos (e
não objetos) do processo. Os dois têm algo a dizer.
Ensina a Criança
Uma das áreas
em que essas evoluções da teoria e da prática
da Comunicação têm tido dificuldades de penetrar
é nas relações entre pais e filhos. Acho
que dá para entender por que. Nem sempre percebemos que
nossos filhos estão crescendo. Refiro-me à dignidade
que vão assumindo, como pessoas, autônomas em relação
a nós, com seus desejos, vontades, pensamentos etc. Aos
nossos olhos, vão ficando grandes, cheios de espinhas,
voz grossa, mas dificilmente deixamos de chamá-los de
meninos. Até afetivamente, são nossas crianças.
Junto com esse lado
bom, no entanto, vai a nossa arrogância disfarçada
de amor. Nossa comunicação com eles está
sempre na mesma direção que esteve nos últimos
dezoito anos: de cima para baixo. Tudo o que eles nos comunicam
se resume em sinalizações sobre como estão
de saúde, o que fizeram ou deixaram de fazer, e outros
"elementos de controle"; informações
que captamos para poder corrigir suas trajetórias. Nem
sempre pensamos no assunto, e muito menos verbalizamos que "eles
não têm nada a nos ensinar", mas essa é
uma realidade tácita. É um pressuposto pacífico.
Na verdade, temos até
o sábio Salomão, a corroborar esse pressuposto.
Quando ele dizia que deveríamos ensinar a criança,
e ela, mesmo velha, não se afastaria desses princípios,
não nos estaria colocando como autoridade suprema em relação
ao seu conhecimento? Esse ensino que hoje lhe dou, é para
sempre!
De certa forma, isso
é verdade. E implica grande responsabilidade. Mas Salomão
está falando, a meu ver, mais que isso: está dizendo
que a criança precisa ser orientada no caminho em que
deve andar; e esse caminho há de ser o dela, também.
É mais que um caminho moralmente aceitável. É
o caminho da vida. Preciso ensiná-la a caminhar seu caminho.
Não o meu. Preciso ajudá-la a adolescer e encontrar
o caminho em que deve andar. Um caminho de santidade, é
verdade, mas não, necessariamente, o meu. E como vou fazer
isso se não aprender com ela sobre esse seu caminho?
Encarnação
e Comunicação
É interessante
o que aconteceu com a teoria da Comunicação. Toda
a evolução dessa ciência acabou por se mostrar
a "redescoberta da roda". Estudaram, estudaram, e descobriram
o que já se sabia há dois mil anos: que a forma
mais completa, mais dignificante, mais eficiente de comunicação
é aquela que promove todos os participantes do processo,
sem transformar qualquer deles em objeto, em elemento menor.
Descobriram que comunicação e adestramento são
coisas muito distintas; descobriram que a simples transferência
de conteúdos mentais não existe, pois o "receptor"
é inteligente e tem seus próprios conteúdos,
pelos quais avaliará o que recebe. Descobriram que a redução
do receptor à condição de objeto do processo
é reflexo da minoridade do emissor, que usa conceitos
extraídos da Psicologia para manipular, dominar, encabrestar.
Ao contrário,
o modelo mais avançado de comunicação já
estava descrito pelo evangelista João:
E o Verbo se fez
carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de
verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito
do Pai. Jo. 1:14
Outra versão,
diz: "e armou tenda entre nós".
O senhor do universo,
ao se comunicar conosco, não usou técnicas persuasivas
de transferência de conteúdos. Ele poderia muito
bem ter feito isso. Ele poderia ter aberto um alçapão
no céu, e gritado. Mas não o fez. O que fez? Abriu
mão da sua glória e nasceu entre nós, como
um de nós.
As Lições
Gostaria de extrair,
dessa revelação de João, 6 lições
sobre comunicação, aplicáveis a qualquer
relação de liderança, mas em particular
entre uma mãe e seu filho adolescente.
1. Primeira lição:
Comunicação é mais que palavras
Deus já havia
falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas
(Heb. 1: 1-2). Deus já havia utilizado a técnica
das palavras. Mas chegou um tempo, em que aprouve ao Pai apresentar-se
por inteiro, de forma que o que de Deus se pudesse apreender
nos fosse manifesto, inteiramente no seu Filho. E então,
Deus pára de falar e parte para atos e gestos. Deus encarna.
Comunicação
é mais que palavras. É gesto eloqüente, é
ação de integração, é encarnação
que faz nascer junto ao seu filho adolescente. Comunicação
é fazer junto, é sofrer junto. É aprender
e crescer com ele.
2. Segunda lição:
Comunicação requer proximidade
Deus já havia
falado à distância: já havia mandado cartas
(livros sagrados) e enviados (profetas), mas não estava
satisfeito. Tudo acontecia numa distância insuportável
para quem realmente ama e quer salvar. Então, pelo gesto
de "habitar entre nós", definitivamente encurtou
distâncias, e se fez um Deus próximo. Em Jesus,
Deus fez a aproximação do homem consigo mesmo.
Comunicação
requer proximidade. Uma proximidade muito mais que física,
amocional e afetiva; uma proximidade de quem se interessa, de
quem quer o bem; de quem quer saber do íntimo, do coração,
da alma, dos problemas. Uma proximidade que se dispõe,
humildemente, a "comun-icar".
3. Terceira lição:
Comunicação exige horizontalização
A vida e as palavras
de Jesus não foram um discurso de poder, mas de fraqueza;
não houve, na boca de Jesus, argumentos de força,
do tipo - faça isto porque eu estou mandando; eu sou sua
mãe - mas espírito de sacrifício.
Comunicação
verdadeira não se dá de cima para baixo; daquele
que manda para aqueles que obedecem; daquele que sabe para ignorantes;
daquele que detém o cetro para plebeus. Comunicação
verdadeira compartilha ideais, visões, alvos e sonhos;
busca, procura ajudadores; inspira vocações; fortalece
os fracos; solidariza-se com as dificuldades e limitações.
4. Quarta lição:
Comunicação é gesto de amor
O texto sagrado nos
ensina que a motivação da encarnação
foi só uma: amor. Porque Deus amou o mundo de tal maneira
que deu..." Um amor que não ficou em palavras, nem
em sentimentos platônicos, mas que deu. Mais que isso:
um amor que se deu. Essa partícula "se", no
caso é muito importante, porque muitas vezes somos capazes
de dar para não termos que nos dar. No caso do pai, da
mãe, do líder, isso é muito comum. Damos
coisas aos nossos filhos para que parem de exigir de nós
proximidade, horizontalização, e doação
pessoal. Mas o amor de Jesus não foi assim. Manifestou-se
em uma intensidade e dramaticidade tal que, ao invés de
dar, deu-se. Este é o gesto de amor de Deus, revelado
na encarnação de Jesus.
Comunicação
é gesto, é atitude, é ação
concreta; é cumprimento de promessa; é realização
de esperança.
5. Quinta Lição:
Comunicação é caminho de serviço
O texto de Daniel 7:
14 fazia prever que aquele que viria seria forte e poderoso;
destinado a ser servido pelas nações da terra.
Quem poderia esperar que Cristo viria na forma de Isaías
53? No entanto, Lucas 9:48 encontra Jesus ensinando, a partir
de seu próprio exemplo, que seu caminho, seu exemplo,
foi um exemplo de serviço humilde e singelo.
Comunicação
é mais que palavras; é mais que proximidade; é
mais que horizontalização; é mais que gesto
de amor.
6. Sexta lição:
Comunicação é um contínuo atravessar
de fronteiras. É romper barreiras
O primeiro grande gesto
de amor de Deus se consumou na travessia de uma barreira dimensional
entre o divino e o humano. Quando Deus se faz homem, estava vencida
a grande distância; a fronteira das naturezas, das dimensões,
das visões do mundo, das compreensões da vida e
do cosmo. A encarnação significa Deus cidadão
do mundo; Deus entre nós - Deus Homem.
Comunicação
é ser capaz de nascer na realidade em constante e rápida
mutação de seus filhos adolescentes, para fezer-se
um com eles; para compreender sua realidade, para sofre sua angústia
de não ser mais criança e ainda não ser
adulto.
Conclusão
Não precisamos
de um curso de Comunicação Social para nos relacionar
bem com nossos filhos adolescentes. Até que não
é má pedida. Mas o essencial é que, também
nessa área, sejamos discípulos de Cristo, quando
diz: assim como o Pai me enviou aos seus filhos rebeldes, eu
também vos envio aos vossos adolescentes.
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